Depressão e perdas em três tempos: Interiores, Reine Sobre Mim e Amor

Pensamentos ao acaso de uma manhã de domingo.

Ver um filme que lide com o luto já não é um exercício fácil, mesmo para quem nunca passou por algo tão afetivamente carregado. Fazer uma maratona com três desses filmes é de deixar qualquer um destroçado!

Não recomendaria ao mais disciplinado cinéfilo, é verdade, o que não me impede de trazer alguma reflexão sobre o tema. Porque falar/escrever, ao final das contas, pode ser libertador. Um fato concreto e indiscutível sabido por todos os psicólogos, e claro, pacientes.

No entanto, antes de tudo, um parênteses para três mini resenhas fílmicas. Um pequeno passeio contextualizador a partir de três olhares distintos e pessoais sobre perder alguém.

Interiores (1978) é uma daquelas obras que crescem na memória após uma boa noite de sono. Talvez por ter sido conduzido com um intimismo que destoa das obras mais badaladas (e histéricas) do diretor Woody Allen. Talvez por tratar de um drama familiar e de feridas de frustração, medo e insegurança deixadas em aberto, afastando entes e criando divisas familiares. Tais como aquelas sugeridas pelas portas, janelas e vidraças diante das quais os personagens parecem estar sempre dialogando/monologando.

Não chega a gerar grandes sentimentos melancólicos ou autoidentificações significativas no público. Afinal, estamos falando dos anseios de uma família de intelectuais de Manhattan. Mas nem o distanciamento teatral que torna a história mais retórica do que concreta consegue apagar a aura de dissonâncias que emana daquela família disfuncional, mesmo que na aparência tudo seja equilíbrio e bem estar. Quem poderá dizer o mesmo do seu interior, ou de qualquer outro?

Reine Sobre Mim (2007). Este aqui já carrega um peso pungente desde a abertura ao som de Love, Reign O’er Me, do Pearl Jam.

Mais do que um filme sobre as cicatrizes do 11 de setembro, esta é uma história sobre incomunicabilidade, e como tantos sentimentos represados podem catapultar a dor da perda, de vidas não vividas, e tornar pessoas tão infelizes. Como é o caso do arrasado personagem do Adam Sandler, sobrevivendo à base de distrações, na tentativa pífia de fugir de lembranças tão doloridas. Também é o caso do personagem de Don Cheadle, uma sombra do estudante impositivo que um dia fora.

A obra é honesta em abordar o grande número de sentimentos autodestrutivos que são mobilizados por uma tragédia familiar. Principalmente por centrar em um indivíduo disturbado (grande interpretação de Sandler), alguém que certamente viverá amargurado pelo resto da vida. Filme para deixar triste até o mais carrancudo dos cinéfilos.

Amor (2012) exige um exame de consciência inicial antes de ser visto.

Estou bem comigo mesmo? Tenho certeza absoluta que quero presenciar o definhar em vida diante do processo de adoecimento e morte?

O diretor Michael Haneke, cineasta conhecido por manipular com maestria os limites da ojeriza e do desconforto, sem esquecer que a psique pode ser tão ambígua e complexa ao ponto de ser a responsável por causar tais sensações. Em Amor não é diferente, um verdadeiro conto sobre cumplicidade marital, ainda que não sejam duas horas agradáveis de acompanhar. Longe disso.

Emmanuelle Riva, no alto dos seus quase 90 anos, soube tornar dolorosamente crível o esvaimento de uma mente, junto com suas lembranças, raciocínio, mobilidade motora, independência, e tudo o mais. Sem esquecer como é duro para um cuidador ver quem ama partir, sem de fato morrer.

Como diria um certo médico ranzinza e cínico, de um certo seriado saudoso:

“O organismo decai, às vezes com 90 anos. Ou às vezes antes de nascermos. Sempre acontece e nunca tem dignidade nisso. Não importa se anda, enxerga ou se você mesmo se limpa. É sempre feio, sempre! Podemos viver com dignidade, mas não morrer com ela.”

… Ou quem sabe, podemos…

E o que esses três socos no estômago têm em comum?

A perda, o luto prolongado (mesmo que em vida), a dificuldade inerente a todos de seguir em frente: a família que não consegue se recuperar da ausência do patriarca; o marido que vê a vida da companheira se extinguir, um pouquinho de cada vez, a antecipação da ausência final; o indivíduo que perde toda a família em uma tragédia, e como defesa às memórias de culpa e de desolação, regride a um estágio infantil.

Três realidades que revelam estados humorais depressivos, próprios de que ainda não conseguiu formar recursos adequados de enfrentamento. Algo que carece de todo o apoio, empatia e amizade que é possível receber.

Pois que para o inferno pessoal do luto não há prazos, regras fixas (salvo o alento descrito) ou desvios resolutivos. Ele deve ser sentido, não importa o quão ruim seja. É o caso aqui do remédio amargo ser o melhor possível. Para o bem ou para o mal.

E se, ao final, a depressão (com todos os seus traços de isolamento, tristeza ou apatia, desânimo, ansiedade, etc.) conseguir ser transmutada em cicatrizes, ainda que fundas – certamente não uma completa cura – pelo menos haverá uma maneira de amenizar o luto. De transformar a imagem de quem se foi em uma parte identitária de nós mesmos, para ser acessada, de maneira saudável, a qualquer momento que quisermos.

Não é fácil, como bem ensinam Allen, Haneke e Binder. Não é garantido. Mas completamente possível.