O ícone da motosserra repaginado

A despeito dos diálogos ruins, erros de continuidade e maquiagens pouco convincentes, é notável a inventividade do diretor Sam Raimi em construir muito com tão pouco. Por isso, a trilogia Evil Dead (1981-1992) deve ser reconhecida pelo que é: uma divertida e surtada caricatura de uma história de terror.

E talvez também esse seja o motivo por ter uma legião de fãs, sempre atenta a qualquer movimento ou empreitada na tentativa de ressuscitar a franquia. O revival de 2013, disfarçado de remake, dirigido por Fede Alvarez com chancela de Raimi foi parcialmente bem sucedido nesse sentido.

Foi apenas em 2015, mais de 35 anos depois do lançamento daquele trash meio amador, que a saga de Ash em sua eterna luta contra o mal ganhou a oportunidade de ter continuidade. O canal de TV Starz produziu três temporadas, de dez episódios cada, contando com o retorno dos principais envolvidos pela trilogia original.

O SetCenas maratoneou cada uma delas, e dará abaixo o seu parecer.

1ª Temporada

Assistir Ash vs. Evil Dead é como reencontrar um velho amigo depois de um longo tempo distante. A franquia, com um dos personagens mais icônicos do cinema trash, Ash, sempre fez parte do imaginário dos fãs do gênero, e deixou aquele toque de esperança de que um dia voltaria para uma sequência (de preferência aproveitando o final apocalíptico do filme de 1992). Esta finalmente veio, embora não como longa metragem.

A série não economiza no gore e na sanguinolência gratuita, tal qual nos filmes. E ainda que o CGI também esteja presente (um pouco mais do que o necessário, talvez), são os efeitos práticos que predominam, conferindo uma textura orgânica aos corpos possuídos. Bruce Campbell, mais canastra do que nunca, solta frases de efeito a cada três falas (todas hilárias!). O cara viveu para ser o Ash, e nada mais justo do que ele retornar ao papel, com direito à motosserra mitológica, à espingarda de cano cortado, e piadinhas à torto e à direito sobre a sua idade. O que, apesar disso, não o exime de um trabalho físico digno de nota, nos embates corporais com as forças malignas.

A história consegue expandir satisfatoriamente, ainda que nem todos os novos personagens sejam carismáticos (Kelly, a menina durona, chega a ser um porre em alguns momentos). Ao passo que a atriz Lucy “Xena” Lawless faz bonito no alto dos seus 47 anos(!). Também há um ou dois episódios fillers que em nada acrescentaram à trama principal (o episódio com a milícia armada, por exemplo).

E claro, não se poderia deixar de frisar o número insano de referências aos clássicos, com cenas dos filmes da trilogia sendo literalmente exibidos. Um prato cheio para quem é cinéfilo!

2ª Temporada

Mais uma vez os fãs da mitologia de Evil Dead são presenteados com uma temporada que adiciona elementos, sem esquecer aqueles que são icônicos e marcaram o imaginário de todos os que veneram a franquia.

Dessa vez, o desastrado herói maneta precisa defrontar o demônio liberto Baal, criatura cuja capacidade de alterar a vontade das pessoas mexerá com tudo aquilo que Ash conhece e acredita (os episódios no sanatório, apesar de seguirem rumos óbvios, são bem conduzidos). Além de contar com os habituais amigos, Kelly e Pablo, se aliará à Ruby (Lucy Lawless, ainda exalando sensualidade a cada fala), o que gera um interessante jogo de ambiguidades já no final da temporada.

Os efeitos especiais continuam tão competentes quanto antes, com a vantagem de que os produtores da série não economizam nas nojeiras, o que inclui litros de sangue e efeitos práticos diversos, resgatando inclusive as criaturas clássicas (vide Evil Dead 2). As piadas também aumentam em quantidade, sendo disparadas incessantemente, fazendo rir mesmo que, no final das contas, sejam paspalhices disparatadas.

Depõe contra a temporada apenas o fato de que o arco final dos dois últimos episódios (excelentes por fazerem uma espécie de remake dos primeiros filmes, e ainda mencionarem as viagens temporais – ainda que com seus absurdos paradoxos – do até então esquecido terceiro filme) não ter uma finalização adequada. Quer dizer, o desfecho parece desfecho, sem aquelas brechas do final da primeira temporada, que traziam a certeza de uma continuação. Aqui tudo tem cara de happy end.

Quer dizer, para quem é fã, sempre fica o gostinho de quero mais. E qualquer gancho deixado é fonte de expectativas e muito bem vindo, nesse sentido.

3ª Temporada

Sabem aquela semi-tristeza que bate quando criamos uma expectativa que não se confirma? Pois é, é essa sensação de desapontamento que toma conta quando sobem os créditos do último episódio desta temporada.

Motivo? Bem, todos sabem que roteiro não é uma prioridade em qualquer formato que Ash Williams apareça, e aqui não seria diferente. A questão é que, mesmo uma obra tão surtada quanto esta tem que ter coerência interna, ter ciência do alvo que quer atingir, e acima de tudo, não deixar desacelerar em momento algum. Cartilha que as duas primeiras temporadas foram certeiras em seguir.

Primeiro, a escolha do arco se passar apenas em uma cidade já limita o escopo do roteiro, pois todas as situações bizarras devem se passar ali (perde-se um pouco da dinamicidade de um road movie, formato já usado na série). Nada de errado até aí, exceto que a série, para encher linguiça por dez episódios, insere personagens bucha de canhão, como os tais descendentes dos cavaleiros sumérios, ou até mesmo, desenterra uma pretensa filha do protagonista, alguém importante para o seu crescimento na temporada, mas que, convenhamos, soou irritante do início ao fim.

Fora que, novamente, se usa a trama de duplos possuídos (Ash, Dalton, Kelly, Pablo – parece que todo mundo precisou ir para o outro lado). Algo que já foi explorado à exaustão; não cabia ser redundante ao ponto de repeti-la.

É fato que este season finale deixou a dever. O que não quer dizer que todo aquele gore, escatologia e situações absurdas que os fãs aprenderam a amar não estiveram presentes. A sequência do banco de esperma ou a da nórdica ‘controlada’ pelo ‘Ash Kid’ são surtadas o suficiente para fazer valer a maratona. Além disso, o desfecho, conquanto aberto, é respeitoso com a mitologia (aliás, a ausência de trechos dos filmes foi compensada pelas referências ao terceiro filme, nunca diretamente mostrado anteriormente), e pontua com acerto o encerramento de uma das franquias mais loucas já concebidas.

Infelizmente, a Starz noticiou o cancelamento definitivo da série por questões de baixa audiência. O que coincidiu com o anúncio da aposentadoria do ator Bruce Campbell do papel que o consagrou. Uma notícia desoladora para os fãs. Pelo menos há um alento nisso tudo: o retorno da série foi respeitoso com a mitologia criada, divertido e totalmente acessível às novas gerações.

Para quem estiver curioso, a 1ª temporada poderá ser vista na Netflix. Fica a dica!