Last Week Tonight: John Oliver e o efeito Orloff

Dizem que um dos objetivos de se estudar História é para evitar a repetição de erros passados. Um corolário disso seria o “efeito Orloff”, expressão criada nos anos 1980, quando se acreditava que a Argentina era pioneira nos avanços econômicos que depois seriam adotados pelo Brasil.

A origem da expressão veio de uma propaganda da bebida de mesmo nome, onde um homem conversava com sua imagem no espelho, “eu sou você amanhã”. Hoje vemos que isso serve tanto para as coisas boas quanto as ruins, e talvez por isso seja extremamente útil assistir o programa “Last Week Tonight”, da HBO.

A Argentina já deixou de ser parâmetro para nós, e o nosso “efeito Orloff” agora vem dos Estados Unidos, com suas mazelas e obscurantismos sempre atrelados à sede de dinheiro e poder. O programa é apresentado pelo jornalista inglês John Oliver, que é radicado nos Estados Unidos há anos, e explora com uma visão extremamente crítica a política, usos e costumes daquele país que é considerado por muitos o paraíso na Terra.

Com um humor ácido, um intenso trabalho de pesquisa e uma edição dinâmica e impactante, John Oliver chega à sexta temporada com seu programa semanal de cerca de trinta minutos por episódio, onde sempre tem um assunto principal, que é explorado com mais profundidade, e alguns flashes sobre assuntos do momento. Vale lembrar que ele foi um dos poucos a alertar sobre os podres de Donald Trump, muito antes do bilionário ter manifestado sua intenção de concorrer à presidência.

Mas, não é só Trump que merece a atenção de Oliver. Muitos outros líderes mundiais como Putin, Kim Jong-un, Xi Jinping, Erdogan, e até o presidente do Brasil são mostrados frequentemente em Last Week Tonight. Oliver dedicou um programa a Bolsonaro, no dia do primeiro turno das eleições de 2018, elencando as facetas negativas do político brasileiro, e posteriormente, mencionou o famoso tweet do carnaval e sua postura frente a degradação do meio-ambiente.

Mas o campeão de incoerências e absurdos parece ser a própria nação americana. Quem imaginaria, por exemplo, que os famosos mísseis nucleares ao longo do país são arcaicos, com sistemas de controle obsoletos, e que usam discos magnéticos de oito polegadas para funcionar? Só para se ter uma ideia, estes antiquíssimos bisavós do pendrive eram enormes, se oxidavam com frequência, e armazenavam míseros 140 kbytes! Imaginem depender disso para se defender de um ataque nuclear…

Outros fatos estranhos são o poder da polícia americana, que é praticamente imune a qualquer acusação, e cujos atos pesam sobremaneira sobre as populações negras e latina. Ou seja, aquela pretensão do Moro de dar alguma imunidade para os policiais daqui, já é realidade absoluta e pétrea entre seus colegas gringos.

A coisa mais estranha para nós certamente é o sistema político de lá. O voto não é obrigatório, como aqui, e os eleitores precisam se inscrever para votar em cada eleição. Some-se a isso o fato de que as zonas eleitorais são modificadas a bel prazer de quem estiver no poder, e aí a equação está completa. Zonas com a predominância de uma população com tendência a votar em um partido podem ser facilmente manipuladas, se o poder estiver na mão do outro partido. Além disso, como praticamente não se usa outro documento além da carteira de motorista, pode-se barrar os eleitores mais pobres simplesmente exigindo um documento com foto!

E como não podia deixa de ser, nestes tempos trumpianos, a vida do imigrante é cada vez mais difícil. As chances de uma imigração legal são praticamente nulas, e mesmo quem se candidata a emigrar como refugiado tem prazos quase infinitos. Famílias inteiras são presas e separadas, e mesmo crianças de dois anos, que mal sabem falar, precisam comparecer sozinhas a um tribunal, pois a lei não obriga o estado a providenciar um defensor público!

Mas, o alvo de Oliver não são só os absurdos americanos. Ele é também um crítico feroz da FIFA, que denuncia como uma das entidades mais corruptas do mundo, e das organizações de esportes que ocultam ou favorecem os casos de doping. Volta e meia ele investiga as ações de Putin, que considera como um dos mais habilidosos e malévolos líderes mundiais.

Algumas coisas são quase inacreditáveis, como o status de cidadão de possessões americanas pelo mundo. Os habitantes de Porto Rico, mais populosos que 21 estados americanos, não votam para presidente, e têm apenas um representante simbólico no Congresso. Pior ainda são os habitantes de Guam, que de cada oito pelo menos um serviu nas forças armadas, e tem inscrito explicitamente em seus passaportes que não são cidadãos americanos.

Mas, o assunto favorito de Oliver é mesmo o presidente Trump, que como ele diz, são duas palavras que não combinam. Ele explora as incessantes trapalhadas do presidente americano, principalmente o “stupid Watergate”, ou seja, um escândalo tão grave quanto Watergate, mas feito da forma mais estúpida possível.

E o que tudo isso tem a ver com o Brasil? Oliver dedicou pelo menos um episódio inteiro às eleições brasileiras (outubro de 2015), e constantemente menciona o país chamando atenção para algum fato absurdo que acontece por aqui – que, convenhamos, tem sido abundantes nos últimos tempos.

Mas, é impressionante como muitos absurdos acontecidos nos Estados Unidos parecem reproduzir-se em terras tupiniquins, notadamente a crescente onda de intolerância religiosa e moral, a violência contra as minorias, e a degradação ambiental promovida na esteira de interesses econômicos.

Tenho recomendado que amigos e leitores que assistam esse programa, seja no Youtube, programas de streaming ou via download, para tomar consciência de que existe algo podre nos reinos deste mundo, e – quem sabe – formar uma visão crítica em relação ao nosso próprio país e o que podemos fazer para salvá-lo, antes que seja tarde demais.