Oscar 2019: entre o avanço e o conservadorismo

A cerimônia do Oscar 2019 deu um recado claro da Academia para o mundo do cinema: o evento está aberto para novas possibilidades, sem abrir mão de suas prerrogativas clássicas na indústria do cinema.

Isso ficou bem claro nos resultados das premiações, algumas surpresas positivas onde a Academia demonstrou que tem interesse em avançar vários degraus no espaço para a diversidade, mas sem vergonha alguma em retroceder, quando achar conveniente.

A prova inconteste dessa premissa é a controversa vitória de “Green Book – O Guia”, que levou três estatuetas douradas: Filme, Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante (Mahershala Ali). O filme desbancou o favorito “Roma”, de Alfonso Cuarón, em uma clara resposta da indústria sobre o crescimento dos filmes distribuídos através de streaming: “sim, nós gostamos de vocês, mas lugar de ver cinema é na tela grande”.

O resultado deixou um gosto agridoce que já parecia desenhando quando Julia Roberts surgiu charmosa e triunfante para anunciar a vitória de “Green Book”. Sentimento parecido quando “Crash” derrotou “O Segredo de Brockeback Mountain”, em 2006. Se a Academia não queria premiar “Roma” poderia ter dado uma chance a “Infiltrado na Klan” ou “A Favorita”, mas preferiu apostar no conservadorismo.

“Roma” levou Fotografia, Filme Estrangeiro e Diretor (Alfonso Cuarón). Categorias importantíssimas. Todavia, para a Academia as três estatuetas foram suficientes para um dos melhores filmes do ano passado produzido pela Netflix. Mesmo com a derrota na principal categoria do Oscar, o filme deu um piscada para os serviços de streaming. O que não deixa de ser um avanço.

Nas categorias de atuação, Mahershala Ali (Green Book) e Regina King (Se a Rua Beale Falasse) confirmaram seu favoritismo no Oscar de coadjuvantes. Já em Ator, a disputa estava entre Christian Bale (Vice) e Rami Malek (Bohemian Rhapsody). Bale promoveu uma verdadeira transformação na interpretação do ex-vice presidente dos EUA Dick Chaney. Venceu o lobby de Malek, que reviveu o astro pop Freddy Mercury em um dos grandes blockbusters de 2018.

A disputa de melhor Atriz também estava acirradíssima. Glenn Close (A Esposa), que acumula 7 indicações ao Oscar sem vitória, e Lady Gaga (Nasce uma Estrela) disputavam a atenção do público e dos votantes. Nem uma, nem outra. A Academia premiou Olívia Colman (A Favorita), que ao final das contas fez um dos discursos mais espontâneos da cerimônia. Lady Gaga não saiu de mãos abanando, vencendo melhor Canção Original com Shallow, de “Nasce uma Estrela”.

O Oscar fez justiça em Roteiro Original premiando Spike Lee por “Infiltrado na Klan”. O anúncio foi feito por um esfuziante Samuel L. Jackson que representou o sentimento de muitos cinéfilos que torciam pelo importante cineasta que já devia ter sido indicado em anos anteriores. Já Roteiro Adaptado, com a vitória de “Green Book”, parecia até um prêmio de consolação para o filme. Ledo engano, que só foi confirmado alguns prêmios depois.

“Pantera Negra”, que já havia entrado para a história com as indicações, ainda venceu Figurino, Direção de Arte e Trilha Sonora. Prêmios merecidos para o gênero super-herói, grande filão da indústria cinematográfica. Enquanto Wakanda demonstrava sua soberania, “Vingadores: Guerra Infinita” sofreu uma derrota inesperada na categoria de Efeitos Visuais para “O Primeiro Homem”. Já Animação não deu para ninguém: “Homem-Aranha no Aranhaverso” mostrou outras possibilidades para a categoria.

Entre avanços e retrocessos, o balanço até que foi equilibrado. O Oscar 2019 não abriu mão do glamour, mostrou que está atento aos novos tempos e à importância da diversidade no cinema. Não deixa de ser uma estratégia de sobrevivência para uma cerimônia que vinha patinando na audiência e na relevância, em anos anteriores.

É ver qual será o legado futuro dessa edição que deu vários avanços, mas não titubeou em premiar um filme que deverá ser esquecido com o passar dos anos e ainda teve o irregular, porém lucrativo, filme do grupo Queen, “Bohemian Rhapsody”, como o maior vencedor da noite, com quatro estatuetas.