Relembrando a franquia Halloween

Se você viveu um bom pedaço dos anos 80 e 90, teme, mais do que sabe, um dos maiores ícones do horror dentro da cultura pop. O maníaco perseguidor de mocinhas indefesas; um poder sobre-humano, quase indestrutível, não importa o quanto se tente derrubá-lo; aquele que se esconde por trás de uma face/máscara lúgubre de medo.

Jason Voorhees? Freddy Krueger? Errado!

Estamos falando de Michael Myers, o pivô de uma franquia que se estende por exatos 40 anos e 11 filmes, pelo menos até então. Personagem que de tempos em tempos ressurge, atraindo novos fãs, repercutindo em boas lembranças cinematográficas para quem é cinéfilo e, acima de tudo, abrindo sutilmente as comportas do medo, este sentimento que a 7ª Arte sabe tão bem mobilizar.

E o que diferencia essa de outras franquias tão batidas dentro do gênero? Será a mitologia mais densa, que brinca, ainda que indiretamente, com antigas lendas celtas sobre o Dia das Bruxas? Será a participação da musa dos slashes, Jamie Lee Curtis, ou do saudoso e carismático Donald Pleasence? Ou ainda, a nossa necessidade íntima, tão inerente ao ser humano, de se sentir tenso na cadeira em frente à TV, diante de um filme que opera através de horrores sugeridos?

Seja qual for a resposta, mais um capítulo de Halloween chega aos cinemas, e com ele, como forma de aquecimento e também como alusão ao dia 31 de Outubro, o SetCenas relembra um pouco dessa franquia tão querida pelos amantes dos filmes de terror.

Halloween – A Noite do Terror (Halloween, 1978)

Direção: John Carpenter

Criança homicida esfaqueia a irmã em uma noite de Halloween, fica internado por 15 anos em um hospício, e foge para consumar sua trajetória e ódio e mortes. Plot simplíssimo para dar estofo a um dos personagens mais emblemáticos do gênero.

Carpenter trabalha bem com a câmera subjetiva, takes longos e aquele tema musical icônico, tornando o filme altamente climático. É aqui também que se forma a mistificação em torno da figura de Michael Myers, o bicho papão, a representação do Mal – em muito devido à obsessão do Dr. Sam Loomis (Donald Pleasence, ótimo!). Fora isso, como um todo, não deixa de ser um tantinho superestimado.

Halloween 2 – O Pesadelo Continua (Halloween II, 1981)

Direção: Rick Rosenthal

Uma quase reencenação do filme do Carpenter, com a diferença de se passar metade do tempo nos corredores e alas de um hospital, ter uma contagem de corpos maior e a sofrível explicação das reais motivações por trás das matanças. Outro ponto de acerto é o suspense ser trabalhado em cima do clima de pânico da cidade, resultante dos eventos do primeiro filme, ao contrário da tensão mais sugerida desse último, que valorizava os espaços ermos e lúgubres, dando a ideia de que o assassino era onipresente. Em tempo, o tema Mr. Sandman encaixa perfeitamente à aura sobre-humana que cerca o maníaco, além de ser uma delícia de ouvir.

Halloween III: A Noite das Bruxas (Halloween III: Season of the Witch, 1982)

Direção: Tommy Lee Wallace

Como esquecer o quanto é fraco?! Traz uma história sem ligação com o perturbado Michael Myers, sobre a conspiração de um grupo obscuro que fabrica máscaras amaldiçoadas para serem usadas na noite de Halloween por todas as crianças da América. Tem androides feitos de fios e meleca amarela, máscaras de dia das bruxas que conjuram insetos e cobras, e bottons que atiram lasers. Chega a ser engraçado de tão absurdo. De positivo apenas os sintetizadores poderosos de Carpenter na música tema, uma ou duas citações autorreferenciais (incluindo a menção ao Samhain), e o final aterrador.

Halloween 4: O Retorno de Michael Myers (Halloween 4: The Return of Michael Myers, 1988)

Direção: Dwight Little

No todo, é apenas bom, ou até mesmo regular, se for considerado em relação à mitologia do personagem Michael Myers. O que faz mesmo a diferença é o desfecho, surpreendente, cru e aberto. Na trama, se é que interessa, Myers sobrevive aos eventos do segundo filme, retornando dez anos depois a Haddenfield para prosseguir com a matança. Dessa vez, seu alvo é a sobrinha da Laurie Strode. Desculpa esfarrapada para sugar ao máximo a franquia iniciada em 78 (bem sucedida, diga-se de passagem).

Halloween 5: A Vingança de Michael Myers (Halloween 5, 1989)

Direção: Dominique Othenin-Girard

Neste aqui, finalmente Myers assume a sua vocação para Jason genérico, e entrega o filme mais fraco da franquia. O roteiro avança um ano no futuro, mostrando as consequências do último ataque de Myers, e uma Jamie (sobrinha de Laura Strode) internada em uma clínica infantil; este é o estopim para o início de uma nova noite de terror. O ritmo é irregular, tem personagem secundária que fica em evidência para, logo depois, virar bucha de canhão; tem Donald Pleasence no modo over; um serial-killer com crise de culpa e facilmente manipulável; e um desfecho que é a coisa mais absurda e sem nexo dos últimos anos. Daqui para adiante, só ladeira abaixo.

Halloween 6: A Última Vingança (Halloween: The Curse of Michael Myers, 1995)

Direção: Joe Chappelle

Paul “Homem-Formiga” Rudd como coprotagonista, Pleasence debilitadíssimo (seria seu último papel antes de falecer), e uma trama tão desconexa quanto estapafúrdia envolvendo seita demoníaca e conspirações para o fim do mundo. Não à toa, considerado o pior da franquia.

Halloween 6: A Versão do Produtor (Halloween 6: The Producer’s Cut, 1995)

Dirigido por: Joe Chappelle

A parte 6 de Halloween é tão confusa, tão bagunçada, que tiveram a (péssima) sacada de lançar um corte diferente, com vários insertos, mais explicação (aqui, ficamos sabendo que o azarado bebê, filho de Jamie Lloyde, é sobrinho de Myers!), e um final diferente da versão de cinema, que ao contrário de tornar claro o encadeamento narrativo, soa ainda mais absurdo do que o desfecho originalmente concebido: a tal seita que vinha manipulando Myers há tanto tempo busca um novo hospedeiro (receptáculo do Mal), e no final das contas, esse vem a ser… Dr. Sam Loomis! A ideia é tão picareta que nenhuma das sequências posteriores a levou a sério.

Halloween H20 – Vinte Anos Depois (Halloween H20: Twenty Years Later, 1998)

Direção: Steve Miner

Esse sim vale a pena ver, ótimo revival. É o primeiro reset da franquia, desconsiderando os últimos quatro filmes e trazendo de volta Jamie Lee Curtis ao papel que a consagrou. Vinte anos depois dos eventos do filme de 78, Laurie Strode leva uma vida nova, ainda que carregue o peso de tragédias e traumas do passado. O medo volta a assombrá-la quando mais um Dia das Bruxas se aproxima. Tem Michelle Williams, Joseph Gordon-Levitt e Josh Hartnett, novinhos; cameo da Janet Leigh (mãe da Jamie Lee na vida real); muitas piadinhas autorreferenciais (na onda de Pânico, lançado dois anos antes); e boas sequências de perseguição.

Halloween – Ressurreição (Halloween: Resurrection, 2002)

Direção: Rick Rosenthal

Rick Rosenthal, o diretor do competente Halloween 2, volta anos depois a ficar a frente de um capítulo da franquia, obcecado, ao que parece, pela ideia de mostrar recortes de vídeos amadores (coisa que ele usou muito por cima no filme de 81), em uma trama no melhor estilo reality show. O problema? Bem, o ritmo é truncado na maior parte do tempo, e só piora com o péssimo elenco, de personagens com zero carisma, e uma reviravolta logo no ato inicial que soa desrespeitosa e estúpida aos fãs da franquia. Se não for o pior dos filmes da mitologia, certamente figura no topo da lista.

Halloween – O Início (Halloween, 2007)

Direção: Rob Zombie

Halloween de 2007 é melhor do que se poderia pensar. Usa os dois primeiros atos para estabelecer a psicopatia de Michael Myers, um estudo interessante (e psicológico) do personagem. Pena que a partir daí o roteiro se dedique a repetir as mesmas situações do filme de 78, os mesmos temas musicais (quase ao ponto de enjoar) do Carpenter e as tiradas referenciais. Como não podia deixar de ser diferente, perde fôlego.

Destaque para o elenco variado: Malcolm McDowell (o Alex de Laranja Mecânica) fazendo uma versão riponga do Dr. Loomis, Danielle Harris, a pequena que protagonizara Halloween 4 e 5, Brad “Chucky” Dourif, Danny Trejo, Dee Wallace e William Forsythe.

É bom, apesar de excessivamente longo e contar com um duplo clímax.

Halloween 2 (H2: Halloween 2, 2009)

Equivocado é pouco para este segundo Halloween do diretor Rob Zombie. Faz um filme escuro, com montagem truncada, doentiamente violento (na pior acepção do termo – com direito à sugestão de necrofilia), cheio de delírios freudianos e desconexos, para contar uma história de traumas com as vítimas do massacre mostrado no filme anterior. No meio do caminho, um Malcolm McDowell fora do tom, e o regresso de um Michael Myers mendigão.

Direção: Rob Zombie

Em tempo, Halloween não é uma franquia muito preocupada com linearidade. O novo filme, por exemplo, ignora todos os anteriores, exceto o primeiro, se definindo como uma continuação direta do clássico de 1978. Mas também é possível ver o primeiro, a segunda parte, H20 e Resurrection (todas com a participação de Jamie Lee) como um capítulo a parte dentro da mitologia. Como também, assistir aos dois filmes de Rob Zombie como uma reinterpretação independente de tudo o que foi feito antes e depois.