Relembrando a franquia A Hora do Pesadelo

– E se encontram um monstro no sonho?

– Eles lhe dão as costas. Tiram sua energia e ele desaparece.

– E se não fizerem isso?

– As pessoas não acordam para dizer o que acontece.

O dia de Sexta-Feira 13 ainda hoje inspira uma certa aura mística, principalmente aos mais supersticiosos. Ou pelo menos é a oportunidade para revisar alguma antiga franquia de terror, daquelas que assustavam quando se é criança, e que hoje talvez sirva mais como comédia involuntária.

A Hora do Pesadelo (1984-2010), com seu icônico Freddy Krueger, o serial killer deformado e debochado dos sonhos, é uma franquia que leva vantagem em relação a outros slashers (Jason, Michael Myers, etc). O visual do personagem, imponente, é o resultado de um trabalho eficiente de maquiagem, que somado à inventividade dos efeitos práticos do primeiro filme, além do carisma inconfundível de Krueger (um vilão sádico e… simpático, algo difícil de imaginar, não?!), concebem um produto totalmente novo para a época em que foi lançado.

Pena que a tentativa dos estúdios, em cima de sugar franquias até o último suspiro de boas ideias, gere sequências que perdem no quesito coerência e sobriedade. Com direito a ressurreições aleatórias, personagens com poderes psíquicos, e gestações amaldiçoadas, sem dúvidas, ideias que desvirtuam a boa premissa de trabalhar o medo a partir dos simbolismos e do clima opressivo que os sonhos, ou pesadelos, suscitam.

O SetCenas listará abaixo todos os filmes da franquia, com comentários descritivos de cada um. Talvez uma boa referência para quem decidir maratonear a franquia ou ver algum dos filmes em alusão a esta Sexta-Feira 13.

A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984)

Direção: Wes Craven

Wes Craven, lançando as bases do que seria a cara do terror nos anos 80 e 90, nos brinda com o melhor exemplar da franquia A Hora do Pesadelo, que viria a ser estragada com sequências numerosas e desnecessárias. Investe em um clima assustador, sustentado pela ideia complexa de que o bicho papão dos nossos pesadelos pode nos matar, e cria o mais icônico personagem do gênero, um psicopata deformado capaz de manipular os elementos dos sonhos.

E se isto serve como dica, ver o filme após a leitura de Never Sleep Again, livro da DarkSide Books que detalha pré-produção e filmagens, tornam a experiência ainda mais prazerosa. A dificuldade em tocar o projeto (abraçado com ressalvas por uma quase falida New Line); a escalação de um elenco de ilustres desconhecidos, salvo um ou outro rosto; a inventividade com que a partir de um limitadíssimo orçamento se criou toda uma engenharia de efeitos especiais práticos, fascinantemente eficazes (a sequência em que um jovem Johnny Depp é engolido por uma cama é um verdadeiro desafio à percepção – e à gravidade!); e o inesperado sucesso, com aura de cult a acompanhá-lo até hoje.

O resultado, mesmo que não impacte todos os tipos de público, é um exemplo forte do cinema de horror. E sim, ele ainda é capaz de causar sustos!

A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy (A Nightmare on Elm Street Part 2: Freddy’s Revenge, 1985)

Direção: Jack Sholder

Protagonista de gritos histéricos e com cara doentia. Close em cima de corpos masculinos, além de diálogos sugestivos. Não é para menos as conotações homoeróticas que fazem a fama do filme. Além disso, a premissa sobre uma espécie de “possessão” de Freddy Krueger é absurda dentro da franquia. De positivo, apenas os efeitos especiais, um tanto melhores em relação ao primeiro filme, e a atmosfera de terror que cerca a narrativa.

A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos (A Nightmare On Elm Street 3: Dream Warriors, 1987)

Direção: Chuck Russell

O legal aqui é a brincadeira de conectar o enredo com o primeiro filme, resgatando personagens e situações. O orçamento provavelmente mais gordo também contribui com o aumento do escopo, com uma ambientação feita com maior esmero, e efeitos mais horrendamente criativos. Conceitualmente, a ideia de enfrentamento nos sonhos cai bem, enquanto em ritmo se mostra sensivelmente irregular.

A Hora do Pesadelo 4: O Mestre dos Sonhos (A Nightmare on Elm Street 4: The Dream Master, 1988)

Direção: Renny Harlin

Sem dúvidas, ainda é prazeroso ver o serial killer mais zombeteiro de todos os tempos aprontando das suas no mundo dos sonhos. Também é um prato cheio para os fãs da franquia a preocupação em continuar com a história contada nos últimos filmes, ainda que não se aprofunde certas circunstâncias (para onde foram os personagens do último filme?). Mas é igualmente inegável que o número de continuações aumente proporcionalmente à quantidade de ideias absurdas: personagens com poderes sobrenaturais, Freddy surgindo sem motivo aparente, novos personagens ganhando destaque de forma mais ou menos aleatória, além de outros mais estereotipados do nunca. Enfim, é o desleixo típico do gênero tomando conta da franquia.

A Hora do Pesadelo 5: O Maior Horror de Freddy (A Nightmare on Elm Street: The Dream Child, 1989)

Direção: Stephen Hopkins

Os efeitos especiais são o ponto alto do filme. No mais, a história se torna cada vez mais desimportante, sendo que aqui a temática da vez é a maternidade. Martelam isso tanto ao ponto de fazerem um desfecho com embate final entre dois filhos (o da protagonista e o bastardo de Amanda Krueger). Mais incoerente e bobo, impossível.

A Hora do Pesadelo 6: Pesadelo Final – A Morte de Freddy (Freddy’s Dead: The Final Nightmare, 1991)

Direção: Rachel Talalay

Tem algumas boas ideias. Desde a inventiva morte do garoto com aparelho auditivo, até a sacada de colocar um Krueger de carne e osso para defrontar os mocinhos da vez (diga-se de passagem, nunca ele foi tão maltratado em um filme). Porém, peca por alguns conceitos bobos (absorver suas vítimas, por exemplo), esmiuçar demais suas origens, chegando ao cúmulo de lhe dar uma filha viva (posteriormente, as franquias Sexta-Feira 13 e Halloween copiariam essa ideia), e trazer personagens fracos à trama. Destaque para a participação relâmpago de Depp e o emblemático RIP ao final.

O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger (New Nightmare, 1994)

Dirigido por: Wes Craven

Não gosto de usar esse tipo de argumento, mas parece que poucos entenderam a escolha narrativa deste atípico filme. Só isso para explicar as avaliações aquém do que mereceria. O conceito é simplesmente genial, todo pautado em metalinguagem, certamente um treino valioso para o autorreferencial Pânico (1996), que viria quase a seguir na filmografia de Craven.

Na trama, os atores e envolvidos na produção do A Hora do Pesadelo original encarnam eles mesmos. Inclusive, Robert Englund e Wes Craven, assim como os produtores Robert Shaye e Sara Risher. É um filme que, se visto de forma descompromissada, pode soar fraco e sem graça. Porém, acompanhando a franquia em maratona, e depois de ler o livro de bastidores Never Sleep Again, O Novo Pesadelo faz todo o sentido, e aumenta muito em conceito. Um verdadeiro presente para os fãs da franquia.

Além disso, é mais pé no chão em relação aos filmes anteriores, com poucas sequências de assassinatos, e mais críveis. Ainda assim, um pouco mais de sutileza ao todo faria bem, amenizando a velocidade com que a protagonista é tomada pelo clima de paranoia. O ritmo também oscila em alguns momentos. No geral, um filme acima da média para o gênero.

Freddy X Jason (Freddy vs Jason, 2003)

Direção: Ronny Yu

Certamente, não merece uma nota tão baixa por parte dos fãs da franquia. Certo, o CGI é excessivo; as sequências de assassinato sem graça, no geral; as cenas com cores saturadas doem nos olhos; a maquiagem de Freddy parece uma máscara convencional e mal acabada; a protagonista é um pé no saco; e por vezes, parece mais um filme do Freddy do que um crossover dos dois maiores ícones do gênero de terror. Tudo isso é verdade. No entanto, fan service não falta, e junto com o embate final, regado à pancadaria insana e decente (faz todo o sentido estar à frente um diretor que manja do estilo), faz a diversão ser garantida. Um último revival para Englund e o legado de horror que espalhou por quase duas décadas e oito filmes.

A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 2010)

Direção: Samuel Bayer

Reboot (ou remake) sem personalidade, genérico, que apesar de investir em um tom mais sério, se perde ao tentar dar importância demais ao próprio mote. Afinal, ainda é um filme de terror, e não um tratado psicológico sobre traumas e repressão. Além disso, o CGI é horrível, a tentativa de fan service é tacanha e forçada, o elenco nada carismático (Rooney Mara pagando mico – detalhe: a degradação física da sua personagem ao longo da história não fica evidente uma única vez), e os assassinatos são tão procedurais ao ponto de facilmente enfastiar. O filme todo pareceu até desculpa para tocarem em algum momento All I Have To Do Is Dream…