O verso e o reverso de um psicoterapeuta – Sessão de Terapia (2012-2014)

sessão terapia

Sessão de Terapia foi uma série brasileira dirigida pelo ator Selton Mello, baseada diretamente em outra produção televisiva, israelense. Apenas duas das inúmeras versões que foram feitas, com adaptações em vários outros países. É o caso da badalada In Treatment (2008-2010) da HBO, protagonizada por Gabriel Byrne.

A adaptação brasileira foi exibida originalmente pela GNT, somando um total de 115 episódios ao longo de três temporadas. Com uma proposta que opta por uma narrativa totalmente estruturada em torno de arcos de episódios representando semanas na vida do terapeuta Theo (cada episódio, uma sessão completa com um paciente), Sessão de Terapia busca explorar a fundo a dinâmica de um processo terapêutico. Ao final de cada arco, o terapeuta (Zé Carlos Machado) passa a ser paciente, com um episódio totalmente dedicado a sua própria análise.

E por mais que os desdobramentos pareçam limitados dentro das possibilidades de um single set (pouca coisa é mostrada do mundo exterior ao consultório), a obra consegue apresentar uma riqueza de subjetividades, anseios, expectativas, neuroses e conflitos, próprios do trabalho de um psicólogo. Em relação a seus pacientes, e vice versa. Com uma honestidade e uma sensibilidade que tornam esta obra uma pequena ode ao ofício de terapeuta.

Esta é mais uma série que o SetCenas se propôs a maratonear, com comentários elucidativos e sem spoilers sobre cada uma das três temporadas.

1ª Temporada

Os cinco pacientes abordados na temporada, talvez os mais interessantes de toda a série, possuem construções bem específicas e desenvolvidas, ainda que o interesse que suscitem seja irregular.

Júlia e Breno, por exemplo, são os personagens mais “carismáticos”: a primeira (Maria Fernanda Cândido, sempre bela), pelo charme característico da atriz, e pelas repercussões de suas reações de transferência erótica direcionadas ao terapeuta, e o outro (Sérgio Guizé), pelo modo como consegue gerar empatia e antipatia no público em igual medida. Junto com o próprio background de Theo (a complexidade da sua análise é um dos pontos altos da primeira temporada), formam uma espécie de tripé para o seriado, e talvez por serem tão interligados, sejam os mais atrativos.

Os outros, independentes das demais histórias contadas, geram impaciência. Nina, por exemplo, não é representada por uma atriz a altura do papel, além de altamente irritante enquanto personagem.

Ao final da temporada, a estrutura psíquica de Theo, bem como as suas defesas, estão em ruínas. Um gancho pessimista o suficiente para atrair atenção à temporada seguinte.

2ª Temporada

Depois de uma traumática primeira temporada, o terapeuta Theo tem que lidar com seus fantasmas, em uma jornada de perdas e ressignificações. Nesse sentido, o personagem evolui muito, supera bloqueios, e apesar das feridas não de todo saradas, busca sair na inércia dos primeiros episódios do seriado.

Fez muito bem à Sessão de Terapia quebrar o hermetismo da primeira temporada, seja trazendo novos pacientes/personagens, seja aproveitando as locações externas de uma arquitetônica São Paulo, ainda que apenas em cenas pontuais. Isso permite captar mais claramente as consequências da “perda” de seus pacientes anteriores, bem como as ramificações que mantém com o seu pai enfermo, com os novos pacientes, e com a esquiva vizinha (personagem que, por sinal, sugere trazer um plot instigante que acaba sendo sumariamente esquecido conforme os episódios transcorrem).

O elenco também está bem melhor, com destaque para a talentosa Bianca Comparato, e para o veterano Cláudio Cavalcanti, cuja sessão final encerra uma bela homenagem post mortem (o ator faleceu ao fim de sua participação na série). Até o casal remanescente da temporada anterior, Ana e João, parece mais simpático, juntamente com o filho Daniel (o pequeno Derick Lecouffle, que segura bem a bola no papel de garoto compulsivo).

Depõe contra esta temporada apenas o tratamento dado a alguns personagens (a supracitada vizinha), bem como o encerramento dos arcos individuais, todos um tanto apressados. A impressão que se tem é que as histórias ficaram em aberto. Intenção ou não, nos angustiamos por não saber como os pacientes lidarão com suas dores e inseguranças, ainda muito presentes, em quase todos os casos. Mesmo que a terapia tenha proporcionado o ganho de recursos de enfrentamento.

3ª Temporada

Chega ao fim a versão brasileira da série Sessão de Terapia. Mais amadurecida, é verdade. No entanto, dando alguns sinais tímidos de cansaço, a começar pelo número ainda mais reduzido de episódios, o que subtrai tempo adequado para o desenvolvimento de personagens.

Aumentam, então, as expectativas sobre as atuações, que são bem atendidas, salvo por um ou outro caso (Letícia Sabatella demora a encontrar o tom de sua atuação, por exemplo). Camila Pitanga, por outro lado, não faz feio com a persona que dá vida. Apenas sua personagem não é devidamente aproveitada. Na verdade, uma sensação que paira sutilmente sobre a maioria dos arcos construídos.

Quanto a Theo, parece finalmente endireitar o eixo da sua errática vida, transtornada nas duas últimas temporadas. Consegue, enfim, se redimir pela omissão familiar, pela tendência quase autodestrutiva de ajudar seus pacientes, e pela falta de amor próprio. Certo que a subtrama envolvendo a dependência química do filho é fraca para catapultar o processo de mudança do terapeuta (tornando risíveis as coincidências, ao cúmulo de atender um adolescente problema, também com comportamentos disruptivos relacionados a substâncias químicas), mas serve a contento para o que se propõe.

É de lamentar o núcleo do grupo de supervisão (uma ideia e tanto) ter sido deixado de lado lá pelas tantas. Sente-se que algumas pontas ficaram soltas, e que o arco não agradou muito a audiência. Além disso, a reviravolta envolvendo a personagem da Sabatella soou de mau gosto, apesar de previsível, vilanizando-a, algo pouco adequada em se tratando de uma vítima de violência doméstica (demanda inicial trazida por ela).

Eis uma série que, ao mergulhar nos conceitos psicanalíticos e no funcionamento de um setting terapêutico, seus procedimentos e condutas, se torna um ótimo material de estudo para estudantes e profissionais da área. O que não exclui ser um bom entretenimento até para quem não é da área.

Atualmente, é possível ter acesso a série através da plataforma Globosat Play.