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O passado é obstinado, e não quer ser mudado

11.22.63(11.22.63)

Classificação: 12 anos

Estréia: 15 de Fevereiro de 2016 (Hulu)

Genêro: Drama, Suspense, Sci-Fi

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h (oito episódios)

Nota do crítico

Crítica

11.22.63, ou Novembro de 63, como é chamado o livro homônimo aqui no Brasil, é antes de tudo, uma história de amor. Para além da trama de viagens temporais, e da tentativa de narrar um dos episódios negros da história americana, o assassinato de John Kennedy (em Dallas, Texas), até então presidente dos Estados Unidos, Stephen King cria um universo coeso e perturbador, em que o vínculo amoroso entre os personagens Jake Epping (James Franco) e Sadie Dunhill (Sarah Gadon) deve se sobrepor à inexorabilidade do tempo.

A transposição para a TV é bem sucedida em resgatar à maioria desses elementos. Do ponto de vista estético, por exemplo, a série é bem construída, tanto na cuidadosa reconstituição de época, como em relação a alguns recursos narrativos chamativos, como o plano-sequência em uma determinada cena-chave, que ajuda a compor a construção da personagem de Gadon. Além, é claro, de uma fotografia visualmente bonita, que acompanha as transições temporais (cores mais vivas no tempo passado, sombrias no presente, e desbotadas quando no segmento futuro).

A narrativa em si é fluida, e consegue captar a atenção de quem a acompanha, seja pela sua inventividade, ou pelo clima de urgência e de quase obsessão de Jake. No entanto, o seu ponto forte é construir uma interação carismática entre seus protagonistas, uma história de amor que resulta em um episódio final ao mesmo tempo melancólico e assertivo. Porque, afinal, não é sem sacrifícios que tomamos as grandes decisões, inclusive de seguir em frente, deixando o passado para trás.

A tragédia de uma nação, prestes a acontecer de novo sob os olhos preocupados de Jake. Será que poderá ser evitada?

Agora, quem leu o livro (um dos melhores escritos pelo King nos anos 2000) sabe que a trama se perdeu ao tentar mudar muitos elementos de base. A começar pela inserção de um sidekick que, embora tenha a intenção de propiciar a externalização dos pensamentos do personagem de James Franco, ao interagir com ele, cria para os roteiristas o problema de mantê-lo até o fim da trama. Tanto que a “retirada” dele soa sem sentido. Além disso, acaba se tornando uma muleta narrativa, isto é, uma estratégia formulaica e burocrática para explicar os pensamentos e intenções de Jake da forma mais “mastigada” possível, através desse novo personagem.

Outra alteração que pode desagradar é a supressão de uma das melhores ideias do livro, sobre o passado agir contra quem o tenta alterar, em seu fluxo contínuo e imutável. Como resultado disso, o livro tem mais idas e vindas no tempo do que a série faz supor… O “reset” da história (isto é, Jake voltar ao princípio mais de uma vez para evitar o assassinato da família Dunning, por exemplo), foi sumariamente ignorado.

Enfim, a série é um prato cheio para os fãs da obra de King, no apogeu da sua força criativa. Mas, talvez, quem poderá ganhar mais com a investida na série são aqueles que ainda não leram o livro, que têm a oportunidade de conhecer e se encantar pela obra, evitando preconcepções e expectativas que deixariam um gostinho de “poderia ter sido assim…”.

Recomenda-se, de um jeito ou de outro, a (re)leitura do livro. Fortemente.

Notas

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