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Seis contos, duas balas e um banjo a galope

A Balada de Buster Scruggs(The Ballad of Buster Scruggs)

Classificação: 16 anos

Estréia: 16 de Novembro de 2018

Genêro: Comédia, Drama, Musical

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 13min

Nota do crítico

Crítica

Os irmãos Coen são conhecidos por seus textos ácidos, sempre buscando desconstruir gêneros e instituições. Do neonoir de Gosto de Sangue (1984), ao suspense policial caricato de Fargo (1996). E mais recentemente, com o reverente e igualmente cáustico Ave, César! (2016), descortinando as entranhas da Velha Hollywood, com seus musicais pomposos e épicos megalomaníacos.

Agora é a vez do western receber um tratamento no mínimo curioso, seja na estrutura, seja em aspectos narrativos. A Balada de Buster Scruggs (2018), projeto apadrinhado pela onipresente Netflix, é uma experiência cinematográfica sofisticada que flerta com o excêntrico, entre o hiperbólico e o histriônico, conferindo ao gênero uma justa homenagem, com um olhar muito mais do que benevolente, também divertido, explosivo (literalmente) e reflexivo.

O longa é construído a partir de seis historietas, cada uma contendo um núcleo narrativo próprio e personagens específicos, vivendo tramas de embates, vingança e travessia. Todas unidas pela ambientação árida e ameaçadora do Velho Oeste Americano – quase como se o mundo todo fosse essas terras –, pelo tom reinante de parábola, bem como pela presença discreta, porém indubitável, da morte, praticamente um personagem à espreita. Prestes a abocanhar cada pistoleiro ou peregrino em um piscar de olhos. Ou em um tiro.

O segmento que abre a antologia é estrelado por Tim Blake Nelson, músico na vida real, interpretando o pistoleiro engomadinho do título. Musicado e hiperviolento, é o conto que mais flerta com o cartunesco. Diferente da história que vem a seguir, “Near Algodones”, protagonizada por um sisudo “James Franco à la Clint Eastwood”, dando vida a um cowboy que se envolve em um arremedo de assalto à banco, com consequências funestas a se desdobrem a partir daí.

Não à toa o tema “morte” é martelado à exaustão em todas as histórias. Sobretudo em “Meal Ticket”, quando o lúgubre se une ao poético para contar a triste e afônica jornada de um artista sem braços e sem pernas, declamador de versos clássicos da literatura, acuado por seu “agente”, interpretado por Liam Neeson. Ou no conto final, “The Mortal Remains”, uma viagem de diligência macabra sem rumo, toda focada no diálogo dos passageiros (destaque para Brendan Gleeson), uma analogia clara ao barco de Caronte, o barqueiro do inferno.

E pelo menos em segundo plano, há também a sugestão de morte e perigo na história de travessia protagonizada por Zoe Kazan, uma mulher frágil em uma caravana, lidando com o inóspito e os percalços da cruzada. E por fim, nas agruras vividas por Tom Waits (ótimo em seus monólogos!) em “All Gold Canyon”, um garimpeiro em busca de ouro em ribanceiras de rios, não importa à qual custo.

A busca solitária por filões de ouro, por paragens bucólicas, nem sempre auspiciosas.

Marcante no conteúdo e no formato, Buster Scruggs é daqueles filmes que crescem na memória. Pelo pastiche de ideias, pelo alto teor referencial (de No Tempo das Diligências à Por um Punhado de Dólares), pelo elenco estrelado, pelo texto corrosivo. Enfim, pela essência, até aqui nunca perdida de vista, de Joel e Ethan Coen.

Notas

Média