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A Divina Comédia de Lars Von Trier

A Casa que Jack Construiu(The House That Jack Built)

Classificação: 18 anos

Estréia: 01 de Novembro de 2018

Genêro: Drama, Horror

Nacionalidade: Dinamarca, França, Alemanha, Suécia

Duração: 2h 35min

Nota do crítico

Crítica

“As aparências enganam” é uma máxima tão intrínseca à filmografia do diretor dinamarquês Lars Von Trier quanto uma outra característica sua muito discutida, que é o traço apelativo que tanto choca o público. Algo evidente tanto em seus filmes, quanto em algumas falas e posições.

A Casa que Jack Construiu (2018) não destoa muito dessas diretrizes, se mostrando simbólica e literalmente uma dissecação sádica e crua sobre o mundo e o lugar do Homem diante das próprias escolhas. Um exercício que, ao mesmo tempo em que pode ser ponte para reflexões, também pode ser contraponto para apreciar a obra de um dos nomes mais importantes e controversos por trás do movimento cinematográfico Dogma 95.

Em essência, o filme se debruça sobre o período de 12 anos – divididos em cinco atos (ou 5 incidentes, seguindo a melhor tradição do diretor em dividir seus filmes em capítulos) – da vida de Jack (Matt Dillon). Um homem aparentemente comum, dedicando sua vida entre o projeto pessoal de construir uma casa em uma paisagem idílica, e os assassinatos que brutal e friamente pratica.

O caçador se preparando para saltar sobre sua presa. Ou o sádico reflexivo.

Em cada uma das partes, além dos crimes perpetrados, temas como família, relacionamentos e genocídio são tratados como pano de fundo e também combustível para longas discussão em off entre o personagem de Dillon e uma suposta voz sem rosto, Virgílio (Bruno Ganz, em participação magnética, mesmo que com uma presença apenas sugerida na maior parte do tempo). Quase sempre, digressões e tergiversações sem rumo sobre o suprassumo da Filosofia, História e Arte, mas também sobre banalidades metafóricas, do tipo que se conversa em um bar após o 6º chopp, como o cultivo de uvas através de decomposição (!).

Enquanto parênteses narrativos, não chegam a comprometer o trabalho de esmiuçar a personalidade de um maníaco com TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo). A lente do humor ácido, a crítica ferrenha ao vazio da sociedade, além do acurado estudo de personagem, garantem um produto ao menos digno de ser assimilado com certa facilidade, ao contrário de trabalhos, digamos, mais herméticos do diretor, como é o caso do enigmático Anticristo (2009).

Até mesmo Dillon, de ordinário um ator limitado (o astro lembrado pelos bobinhos Quem Vai Ficar com Mary? e Dois é Bom, Três é Demais), não compromete com seu psicopata de arroubos megalomaníacos e genocidas. O único “porém” é a mudança brusca e inexplicável de expressões (não necessariamente uma questão de interpretação), passando de um monossilábico e inexpressivo sujeito para um afoito tagarela.

Se o filme prosseguisse nessa linha, teríamos um suspense psicológico acima da média, embora não muito distante do convencional. Descontente, talvez, com a obviedade de sua criação, Trier resolve alinhavar o roteiro com um desfecho que não dialoga com o todo, transformando-o, na verdade, em uma outra coisa de sentido totalmente diverso. São vinte minutos (que parecem 60) de pura pretensão; uma tentativa tacanha de transformar uma ideia em uma alegoria literária suprema, visualmente artística. E textualmente pobre na prática.

Não à toa, é uma obra que tem potencial para mais afastar do que criar interesse. De qualquer maneira, não deixa de ser um exercício válido de pensamento, após um período mínimo de digestão, nem que seja para execrá-lo sumariamente, logo depois.

Bônus 1: nada como ver uma envelhecida, quase irreconhecível Uma Thurman, em participação rápida, apenas para ser o gatilho maníaco do protagonista.

Bônus 2: em um dos delírios ególatras e metalinguísticos de Trier, cenas de alguns de seus filmes são usados para discutir o poder dos ícones como forma de Arte (uma boa sacada, há de se reconhecer!).

Notas

Média