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A dança da inocência salva pela arte

Inocência Roubada(Les Chatouilles)

Classificação: 12

Genêro: Drama

Nacionalidade: França

Duração: 1h43

Nota do crítico

Crítica

“Eu não sou de falar muito, eu danço.”

Esse trecho de um diálogo da personagem Odette nos situa em como a narrativa do filme Inocência Roubada, Les Chatouilles, vai sendo desenvolvida ao longo de quase duas horas de projeção. A história não obedece a uma ordem cronológica, a trama vai sendo desenrolada e conduzida com passado e presente em absoluta harmonia. A criança de oito anos que foi abusada sexualmente é refletida  nos passos duros e fortes que Odette adulta incorpora na dança. As mudanças de quadro durante várias cenas do filme simulam passos  marcantes e extremamente fortes que nos sacodem,  a transição é quase sempre  brusca, como se a diretora Andréa Bescond quisesse dizer para nós expectadores: acordem, tanta coisa acontece ao nosso lado e não nos damos conta. Essa técnica utilizada parece dialogar com o estado psicológico da personagem que encontrou na dança o fio condutor, o fio de Ariadne para a cura do trauma sofrido da infância.

Baseado em fatos reais, o filme é uma adaptação da peça teatral Les Chatouilles ou la danse de la colère, é uma autobiografia em que Bescond narra os abusos sexuais sofridos na infância e ignorados pelos pais durante toda sua vida. A diretora vive a si mesma na trama, ela é também a protagonista e sua maestria como dançarina é facilmente compreendida, uma vez que ela começa na dança aos três anos de idade e aos dezenove se consagra e chega a ganhar o prêmio Molière de melhor solo em cena. Belmond divide a direção do filme com o marido, Eric Mètayer.

A narrativa fílmica estabelece um claro diálogo com o teatro, os cortes que ocorrem em várias cenas deixam isso bem evidenciado, o que também dá uma maior velocidade e dinamismo à trama. A dança de passos e coreografias densas, fortes, firmes deixa evidente o grito, a raiva que a personagem não esconde sentir. Ela é visceral, sua presença engole o tempo e espaço, Odette e a dança são as protagonistas, não há coadjuvância, a força de uma está na outra. O filme é bem conduzido, interpretado, e na cena final, percebemos que a catarse que a arte proporciona se materializa no diálogo entre Odette criança e a  adulta,  no momento em que se encontram em um palco escuro. A criança desenha em um papel e declara que é sozinha desde sempre, e sem esboçar nenhuma dúvida, aceita o convite de acompanhar a adulta. A Odette mulher  estende-lhe a mão e se desculpa por tê-la abandonado: “Vem comigo.” E foram, juntas, deixando nítido que é também a arte que nos salva da vida.

Notas

Média