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A dança onírica dos desejos

Para Onde os Sonhos Vão(Para Onde os Sonhos Vão)

Estréia: 10 de Dezembro de 2018

Genêro: Drama / Fantasia

Nacionalidade: Brasil

Duração: 10 min

Nota do crítico

Crítica

O termo “realizador” costuma ser empregado como sinônimo de quem faz cinema. Já o termo “realização” é bastante adequado para definir a sensação dos alunos de Produção Audiovisual da Universidade Potiguar – UnP Laureate ao exibir no dia 10 de dezembro de 2018 os oito curtas-metragens, produtos finais dos Trabalhos de Conclusão de Curso.

Além da exibição, o professor Ricardo Felix, idealizador deste projeto, convidou profissionais da área audiovisual para avaliarem e escolherem os vencedores de diversas categorias técnicas e artísticas do que se tornou um Oscar bastante aguardado e celebrado por todos os 300 participantes da sessão, entre alunos, professores e convidados. Os TCCs apresentados tiveram um nobre objetivo para divulgação das histórias produzidas no Rio Grande do Norte: cada trabalho adaptou para o audiovisual obras de artistas potiguares expressos em outras mídias.

O professor Ricardo Felix foi o anfitrião desta que seria uma celebração para os concluintes do curso de Audiovisual na Universidade Potiguar (crédito: UnP)

Neste julgamento, o trabalho que recebeu o tão cobiçado prêmio de Melhor Curta-Metragem (assim como de Melhor Direção, Melhor Música, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição e Montagem e Melhor Fotografia) foi “Para Onde os Sonhos Vão”, dirigido por Nathalie Alves e baseado na música homônima do cantor e compositor Mariano Tavares. Não por menos, este TCC possui fôlego competitivo em termos de qualidade técnica e narrativa cinematográfica para além das bancas de avaliação acadêmicas e presumo que deverá angariar alguns prêmios em diversos festivais do Brasil.

O curta-metragem inicia nos levando para algum lugar numa estrada ensolarada com vista para um aprazível mar em amplo horizonte. Numa praia, Hugo (interpretado por Francisco Júnior) e Isa (Vanessa Labre) estão em um momento decisivo em seu relacionamento. Deste momento de radiante sol, passamos para a noite no que parece ser a casa de Hugo. Uma luminária destaca-se na escuridão profunda do quarto. O sono de Hugo, repleto de sonhos, provoca nele um sorriso involuntário.

A montagem alternada, que mostra o que aconteceu com Hugo e Isa na praia e na casa, gradativamente apresentam pistas até culminar numa metáfora visual eloquente e perturbadora: na suavidade da dança entre os protagonistas, filmadas com fluidez no interior da casa, contrasta-se com cenas tremidas e ofegantes na praia. Condicionada por uma música que mescla-se como diegética e extradiegética (o que significa, respectivamente, sons que os personagens podem ouvir e trilha sonora perceptível para quem assiste o filme), traz a ambivalência entre a sofisticação de um encontro amoroso e a abominação da rejeição.

E sofisticação também é um traço visível do figurino e da cenografia vintage escolhida para o curta: o fusca, as texturas de cada ambiente da casa, o relógio de parede, o toca-disco, entre outros detalhes, ganham potência por uma fotografia segura e pela qualidade da captação da imagem, impressa com todo vigor na sala de exibição do cinema.

Equipe reunida para rodar mais uma cena do curta “Para Onde os Sonhos Vão” (crédito: Making of / Sinergia Audiovisual)

“Para Onde os Sonhos Vão” mostra um vitorioso Hugo que consegue tudo o que quer quando está entre as paredes de sua subjetividade. Ele preserva (ou seria aprisiona?) seus fantasmas, a sua consciência, produz fantasias e tenta impor controle nelas ao mesmo tempo que sente que o balançar de suas lembranças, como o pêndulo de um relógio que marca o Juízo Final, tenta alertá-lo sobre as consequências de suas escolhas. Cabe ressaltar o belíssimo trabalho de animação e lettering dos créditos finais que reserva a moral da história e o posicionamento da equipe que realizou o curta em três números: 180, telefone para a Central de Atendimento à Mulher.

Se para realizar qualquer tipo de sonho exige empenho, no audiovisual um sonho bem executado exige “esforço coletivo simultâneo”, ou seja, uma “sinergia”. Guarde este nome: Coletivo Sinergia Audiovisual. A equipe demonstra competência e seriedade em seus trabalhos acadêmicos e me faz vislumbrar, num futuro que desejo que seja próximo, não apenas a realização de seus projetos audiovisuais mas de ser visto nas salas de cinema do Brasil, no mundo afora e, por que não, ser premiado no que seria equivalente ao (e quiçá o próprio) Oscar.

Tudo se origina de um sonho que ao ser compartilhado se torna um trabalho bem feito. Superando as barreiras financeiras, de divulgação e distribuição, talvez o termo “sonhar” se aproxime (e equivale, por fim) do termo “realizar”.

Escute a música “Para Onde os Sonhos Vão“, de Mariano Tavares, que inspirou este curta-metragem.

Notas

Média