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Os fantasmas interiores que espreitam o tempo

A Maldição da Residência Hill(The Haunting of Hill House)

Classificação: 16 anos

Estréia: 12 de Outubro de 2018 (Netflix)

Genêro: Drama, Horror, Suspense

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h (10 episódios)

Nota do crítico

Crítica

O medo não é um sentimento monopolizado pela ficção. Ele é algo palpável, concreto, faz parte da existência humana, como um DNA indissociável. Não à toa, as produções televisivas ou cinematográficas que mais são bem sucedidas em suscitá-lo são justamente aquelas que abraçam abertamente nossos próprios fantasmas, dissecando-os aos olhos insaciáveis da turba curiosa (aka fãs do gênero aka voyeurs por natureza).

A Maldição da Residência Hill, que se recobre de uma inspiração a partir da obra da escritora do horror gótico Shirley Jackson, é dessas histórias que convencem sem muito esforço, mesmo sabendo-se que, em essência, é um conto sobrenatural com apelos sobre a imaginação cativa do público.

E o que a diferencia das demais produções?

Justamente dedicar boa parte dos seus dez episódios em caracterizar a família Crain, os pais complexados e seus filhos cronicamente traumatizados. São pessoas reais, palpáveis, que choram, cultivam seus próprios grilhões psicológicos, e mantêm-se em círculo vicioso com suas limitações. É sobre dramas iminentemente humanos de que a série trata e, por isso, é muito fácil entender a repercussão positiva e audiência que a Netflix conseguiu com sua produção.

Ainda que vez ou outra se perca entre a verborragia excessiva e o dramalhão humanizante, ela acerta em todos os outros aspectos a que se propõe trazer excelência: desde a direção segura de Mike Flanagan (do eficiente Jogo Perigoso), ao elenco, escolhido a dedo, com destaque para a bela e talentosa Carla Gugino (ainda que haja, ressalva-se, uma ou outra atuação abaixo da curva, como a do desajeitado Henry Thomas, o garotinho de E.T. – O Extraterrestre).

E por falar em direção, a mão santa para o cinema de Mike Flanagan é destacável mesmo à distância: sua câmera a explorar cada recanto da Residência Hill, transformando-a em mais um personagem, além do próprio exercício visual a que se lança em experimentação (o episódio 6, quase todo em plano-sequência, é sensacional!), tornam este um dos talentos mais promissores (e subestimados) da atualidade.

Justaposições entre passado e futuro, além de darem um eficiente background a cada personagem, também sublinham um desconcertante elo entre a Residência Hill e a família Crain.

A série em si abusa de jump scares e sustos gratuitos. Ainda assim, não é nisso que reside suas virtudes. É na preocupação e zelo com que cada partícula de humanidade é desenvolvida e manipulada. Algo que falta em muitas outras obras sem alma (com o perdão do trocadilho), que se transformam em sucessos instantâneos, desmerecidamente, e que parecem se multiplicar ad infinitum, infelizmente.

Notas

Média