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A rave do robô doidão

Eu, Robô(I, Robot)

Classificação: Classificação indicativa 12 anos

Estréia: 06/10/2004

Genêro: Ficção-científica

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h55m

Nota do crítico

Crítica

O fã dos livros do célebre autor de ficção-científica Isaac Asimov, ao assistir “Eu, Robô” (I, Robot), certamente terá se decepcionado um pouco, já que o filme não seguiu nenhum dos livros e contos do escritor. Contudo, é como se o roteirista tivesse aberto as páginas do livro homônimo ao acaso, e é possível reconhecer várias ideias, pinçadas de diferentes contos, num déjà vu que serve para enriquecer o que seria apenas mais um filme de ação.

No ano de 2035, os robôs são eletrodomésticos usuais, com a fabricação monopolizada por uma única corporação, a US Robots (será que Asimov, em 1950, já vislumbrava o monopólio que a Microsoft e Amazon teriam?). Embora a maioria da população aceite de bom grado os robôs, principalmente para os trabalhos braçais, o policial Spooner (Will Smith) continua avesso aos seres mecanizados.

A maior vantagem dos robôs, além do óbvio trabalho escravo, é a presença de três diretrizes, implantadas diretamente em seus cérebros positrônicos (não perguntem o que é, o próprio Asimov não fazia ideia…), denominadas Leis da Robótica:

1ª Lei : Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos que em tais ordens contrariem a Primeira Lei.

3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não contrarie a Primeira e a Segunda Leis.

Devido a uma experiência traumática, no passado, Spooner rejeita essa confiança nos robôs, fazendo questão de demonstrar seu preconceito em relação a eles. Um certo dia, um dos maiores cientistas da US Robots suicida-se, deixando uma misteriosa mensagem para o detetive.

Intrigado, Spooner começa a investigar o caso, auxiliado por uma psicóloga de robôs, Susan Calvin (Bridget Monayhan), que surpreende-se, ao descobrir que todos os indícios apontam para Sonny, um robô da novíssima série Nestor, prestes a ser lançada no mercado.

Os novos robôs fazem parte de um ambicioso projeto de distribuição da US Robots, que irá proporcionar um autômato para cada cinco humanos. Enquanto isso, fatos estranhos, sempre envolvendo robôs, acontecem com Spooner, que escapa de uma demolição e de virar sanduíche de caminhões.

Desacreditado por todos, Spooner corre contra o tempo e os acontecimentos, para provar que não está louco, e que suas suspeitas de conspiração são verdadeiras. Ponto. Para saber mais, assista ao filme.

Aqueles que conviveram com os livros de Asimov, “Eu, Robô”, em especial, irão encontrar muitos pontos familiares. A psicóloga Susan Calvin, personagem central da maioria dos contos, foi relegada a um segundo plano, no filme. Sua personalidade cáustica e amarga, já que só sentia amor imenso pelos robôs, foi bastante suavizada, além de ganhar um rostinho bonito. Outros personagens, como o Dr. Lanning e o burocrata Robertson, também estão presentes nos vários livros sobre robôs, de Asimov.

O conto que parece ter servido de principal inspiração é “O Pequeno Robô Perdido”, onde um robô da série Nestor, utilizado em estações espaciais, fugira e precisava ser identificado entre 62 réplicas idênticas. Esta cena foi magnificamente ampliada, no filme, com mil robôs criados em computação gráfica.

Outra ideia de Asimov, presente no filme, é a do “Complexo de Frankenstein”. Como no livro de Mary Shelley, seria o temor do monstro que se volta contra o seu criador. É perceptível, também, uma certa semelhança com “Matrix”, cuja revolução das  Máquinas foi iniciada após um robô ter assassinado seus patrões.

O elenco está muito bem, em especial Will Smith, que descobriu que atuar bem não é só fazer caretas. Além disso, em muitas cenas ele deve ter contracenado com o vazio, já que os robôs foram preenchidos por computação gráfica na fase de montagem do filme.

O ponto desagradável do filme é o merchandising gritante, com cenas tipo “que tal este modelo 2004 de tênis?”, além de exposições de marca de carro, de som, empresa de entregas, etc..

Um aspecto curioso, intencional ou não, é a forte semelhança dos robôs do filme com os estrangeiros nos Estados Unidos. Apesar do desprezo em geral, e do forte preconceito, eles são necessários para o trabalho sujo ou braçal, que o americano “puro-sangue” não gosta de fazer.

Cinematograficamente falando, “Eu, Robô” não deixa nada a desejar, em relação a qualquer outra produção do gênero, atual ou passada. Os efeitos especiais, elaboradíssimos, complementam a história, ao invés de tomar o lugar dos atores. O filme mereceu uma indicação ao Oscar 2005 de Melhores Efeitos Visuais.

A direção é de Alex Proyas, que dirigiu “Deuses do Egito” (“Gods of Egypt, EUA, 2016). A trilha sonora de Marco Beltrami é fantástica, e os efeitos sonoros muito bem feitos. Lembro de ter assistido este filme em um cinema no Rio de Janeiro, e fiquei maravilhado com o som já nos créditos de abertura.

Este é um filme que não envelheceu, apesar de já ser do novo milênio. Considerando a atual onda de filmes vazios, onde os efeitos especiais ocupam os papéis principais, “Eu, Robô” mantém o equilíbrio correto, sendo um ótimo entretenimento para os amantes de filmes de ação, mesmo aqueles que não são chegados à ficção-científica.

Notas

Média