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Aladdin: um herói pop, vivo e em cores

Aladdin(Aladdin)

Classificação: 10 anos

Estréia: 24 de maio de 2019

Genêro: Aventura musical

Nacionalidade: Estados Unidos

Duração: 2h8min

Nota do crítico

Crítica

Na recente leva de refilmagens de clássicos da Disney para o formato live-action, Aladdin era um dos mais aguardados pelo público. Tanto esperado quanto alvo fácil de críticas e desconfianças, como todo remake, invariavelmente, está fadado a ser. Afinal, comparações são sempre inevitáveis, e os espectadores têm uma tendência a esperar certa fidelidade à obra original e a torcer o nariz para “cópias”.

Coube a Guy Ritchie – conhecido por dirigir filmes de aventura como Sherlock Holmes e Rei Arthur – a missão de transpor para as telas a famosa história do ladrãozinho de rua que encontra um gênio de lâmpada capaz de realizar-lhe três desejos. E a Will Smith foi dada a árdua incumbência de interpretar o poderoso ser de cor azul eternizado pelo saudoso Robin Williams. Já o protagonista, Aladdin; seu par romântico, Jasmine; e o vilão, Jafar, ficaram sob a responsabilidade de um trio de atores ainda pouco conhecidos do público: Mena Massoud, Naomi Scott e Marwan Kenzari

O protagonista Aladdin ganha vida pelas mãos de Mena Massoud

Gênio em explosão de cores

Então, como manter a aura da já consagrada animação de 1992, utilizando atores em carne e osso, sem perder o ritmo, a magia, a vivacidade e, principalmente, o humor característico? Novamente, há que se ressaltar que é uma tarefa ingrata. Mas, cabe dizer que foi cumprida, se não magistralmente, pelo menos de maneira digna. Muito criticado antes da estreia, Will Smith conseguiu imprimir sua marca pessoal no Gênio. O personagem ganhou uma certa malandragem e soube se sobressair com boas piadas.

O temido resultado do uso de CGI (Computer Graphic Imagery – imagens feitas por computação gráfica) não chegou a comprometer o desempenho do Gênio, como aconteceu em A Bela e Fera, tornando esse recurso até relevável, em detrimento da função lúdica que Smith conseguiu manter. Porém, mesmo que a atuação de Smith seja convincente, é impossível não associá-la a outros personagens da carreira do ator. O Gênio acabou ficando uma mistura de Hitch – Conselheiro Amoroso com Um Maluco no Pedaço, dois de seus mais famosos papéis. Inclusive, a famosa canção A Friend Like Me, com sua levada rap lembra muito a abertura da série que o consagrou. Ele rende vários momentos divertidos ao longo do filme, mas não deixa de ser Will Smith sendo Will Smith, apenas pintado de azul num cenário árabe.

Will Smith faz um Gênio carismático se utilizando de velhas fórmulas

O filme acaba se destacando mais pelo visual estético do que pelo conteúdo propriamente dito. A direção de arte e o figurino são de encher os olhos, lembrando os multicoloridos filmes de Bollywood. Destaque para as roupas de Jasmine elaboradas pelo figurinista Michael Wilkinson, todas ricas em cores, ressaltando o esplendor e suntuosidade próprios da cultura árabe/oriental. No entanto, o design de produção de Gemma Jackson – apesar de exaltar esses itens culturais tão característicos – pecou, igualmente, pelo excesso de elementos cênicos, deixando certas cenas poluídas visualmente, o que, por vezes, compromete a experiência, principalmente, ao se assistir à versão legendada em 3D.

Os números musicais, em especial o já citado A Friend Like Me e Prince Ali são pura exuberância e os mais perfeitos exemplos de pirotecnia visual. Assim como no original, são as sequências que mais prendem a atenção pela megalomania e múltiplas facetas do Gênio. As canções receberam novos arranjos, com melodias mais pop, e suas interpretações não decepcionam, embora estejam aquém das clássicas, que estão na ponta da língua das últimas gerações desde a infância. Já a trilha sonora de Alan Menken soube captar bem as características da cultura do Oriente Médio, deixando esse aspecto mais forte e marcado do que no desenho.

O figurino de Jasmine é puro requinte de cores

Afinal, nada se cria… mas cabe uma mulher poderosa

Como aconteceu nos últimos remakes de animações, a direção procurou manter o filme o mais fiel possível do original, praticamente não mexendo no roteiro. Apenas algumas cenas não existentes foram inseridas, assim como novos personagens coadjuvantes atuando como alívio cômico – a Dalia de Nasim Pedrad foi um acerto nesse quesito. Não obstante, a falta de maior criatividade tende a deixar parte do público que ansiava por novidades um tanto quanto frustrada, pois as mudanças ficaram mais na promessa do que nas vias de fato.

Cada vez que um dado adicional é apresentado parece que a história vai dar uma guinada, porém, o enredo logo volta ao seu curso convencional. Faltou mais ousadia a Ritchie, que também escreveu o roteiro, em parceria com John August. Parece que havia vontade de inovar, mas o medo de contrariar os saudosos fãs, ou até mesmo as imposições do estúdio, falaram mais alto. É o que se pode ver também na pouca inventividade na criação de planos, todos muito padronizados, sem ousadia. Ficou aquela sensação de ser mais um caça-níquel que faz só o essencial para agradar o espectador mediano e render uma boa arrecadação nas bilheterias.

Jasmine não precisa exatamente de um romance em sua vida

Talvez a maior mudança tenha sido na construção de Jasmine, que ganhou mais espaço na trama – muitas vezes, chegando a ofuscar Aladdin – e se tornou mais empoderada, seguindo uma tendência contemporânea no desenvolvimento de personagens femininas para estar de acordo com o papel da mulher na sociedade atual. Tanto que ganhou uma motivação e canção própria, não existentes no filme que lhe deu origem.

Contudo, a inserção desse novo elemento, embora necessária para reforçar as lutas femininas no contexto em que vivemos, ficou meio forçada. Não o enredo da personagem em si, mas os números musicais, que parecem deslocados dentro narrativa, dando um ar piegas e clichê desnecessário à trama de Jasmine, que poderia ter sido enfatizada de outra maneira. Nesse caso, o problema não foi no que mostrar, mas em como mostrar. A canção criada pelos compositores de La La Land, Benj Pasek e Justin Paul, de fato, apresenta toda a força da princesa, que faz valer a sua voz e clama por sua autonomia num mundo árabe dominado por homens. No entanto, o subplot fica como uma peça solta flutuando sem homogenizar com o todo.

Aladdin e Jasmine funcionam melhor separados do que juntos

Herói e vilão perdidos no deserto

Sim, precisamos falar sobre ele: Aladdin. A grande estrela do longa acabou mesmo ficando em segundo plano, quando deveria ser o centro das atrações. Mena Massoud foi uma boa escolha para viver o papel-título, assim como Naomi Scott como Jasmine, até mesmo pelas semelhanças físicas com os personagens, mas foi subaproveitado. Ele até começa bem como o esperto ladrão que tem o macaco Abu como fiel escudeiro, mas perde muita força no segundo ato, parecendo apenas um menino bobo e inseguro, até mesmo apático, servindo somente como escada para as esquetes do Gênio. Aladdin é essencialmente engenhoso, safo e possui um charme natural para conquistar todos à sua volta, algo que é visto apenas como um lampejo nessa nova roupagem. Tanto que ele acabou ficando à sombra do Gênio e de Jasmine, que, sem dúvida, carregam o filme.

Nem mesmo as fortes ligações que ele mantém com os outros personagens deslancham o suficiente. O romance entre ele e a princesa de Agrabah parece mais uma brisa morna do que um tornado de emoções que simbolizam a descoberta e o fascínio do primeiro amor. O casal carece de química. Jasmine é tão autossuficiente que parece estar mais interessada em alcançar seu intuito dentro do reino do que em se preocupar com questões românticas. Nem mesmo a emblemática A Whole New World, que seria o ponto alto do filme, foi capaz de exibir as faíscas que deveriam emanar do par de enamorados. Nem um olharzinho mais afetuoso se vê para aquecer o coração dos espectadores mais sensíveis e nostálgicos.

Aladdin faz uma parceria menos emotiva com o Gênio

A mesma falta de conexão está presente entre Aladdin e o Gênio. Os instantâneos laços de afeto que se formam entre a dupla não são convincentes o bastante, como na animação. Aqui, eles são mais parceiros do que amigos. Não é possível ver a ternura de uma amizade verdadeira entre eles. Resumindo: as relações entre os personagens funcionam mais como auxiliares de seus desempenhos individuais do que como carros-chefes que fazem a obra engrenar.

Mas todo herói precisa de um contraponto, e é aqui que reside a função do vilão. Considerado um dos maiores antagonistas das produções da Disney, Jafar é a própria encarnação da maldade e da ambição. Personagem com caráter tanto ardiloso quanto asqueroso, no live-action ele ganhou ares de vilania de novela mexicana, sem nenhum talento para ser um vilão genuíno capaz das maiores atrocidades para atingir seus objetivos. É uma especie de ex-galã que decidiu fazer o mal porque foi rejeitado, colocado em segundo plano. Até mesmo seu braço direito, a arara Iago, perdeu sua função-chave como o ajudante maldoso que serve para construir uma dupla oposta àquela formada por Aladdin e o Gênio.

O antagonismo do papel exercido por Kenzari cai por terra, pois ele não consegue segurar o personagem em termos de interpretação, nem mesmo pela sua figura, que não condiz com o perfil do personagem. E um filme sem um grande vilão perde seu clímax, tirando o brilho do gran finale do mocinho.

Jafar é o galã que não deu certo e decidiu ser vilão

A nova versão de Aladdin rende bons momentos e consegue divertir, mas fica a sensação de que poderia ter sido mais. Não faltava potencial para isso. A direção (talvez pelas amarras que lhe foram impostas) não soube aproveitar melhor a cativante história que tinha em mãos. Guy Ritchie entregou à audiência uma história crível e aventuresca, cheia de pompa e com enorme apelo visual. Mas faltou algo mais; faltou alma e coração, o que tinha de sobra no desenho lançado há 27 anos.

No final, o filme se configura mais como um passatempo para ocupar uma tarde enfadonha com boa dose de adrenalina, humor e um trilha cantarolante ao fundo. Não é uma obra para ficar no imaginário das pessoas e ser lembrada pelas novas gerações nos próximos anos como uma peça cinematográfica que lhes marcou. Mas vale a pena conferir pelo espetáculo belo e frenético, e pelo esforço em tentar chegar lá. Quem sabe na próxima.

Notas

Média