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Em algum lugar, em qualquer tempo

Alguma Coisa Assim(Something Like That)

Classificação: 16 anos

Estréia: 26 de Julho de 2018

Genêro: Drama

Nacionalidade: Brasil, Alemanha

Duração: 1h 21min

Nota do crítico

Crítica

Os relacionamentos pueris mais significativos (não necessariamente os amorosos), dizem, são aqueles que se enraízam mais fortemente na memória. Ficam guardados a sete chaves, acalentados de tempos em tempos, em uma mistura entre a bem vinda sensação de revivência, e a certeza de que nem tudo que se deseja é possível concretizar.

É mais ou menos esse o gosto agridoce deixado por Alguma Coisa Assim (2017), coprodução entre Brasil e Alemanha que descreve encontros em três períodos distintos separados por anos, da intempestiva Mari (Caroline Abras) e do inseguro Caio (André Antunes). Tudo isso em uma estrutura não linear, mesclando momentos desses encontros, de 2006, 2013 e 2016, a partir de filmagens realizadas em tais anos, em uma experiência muito similar a do diretor Richard Linklater em Boyhood – Da Infância à Juventude (2014).

O que resulta daí são três crônicas intercambiáveis que representam o impacto do tempo sobre as pessoas, o que as move, e aquilo que as atrai entre si. E se tudo é uma questão de mudanças em espiral ao redor, resta a Mari e a Caio transitar pelas instâncias de suas limitações, angústias e incomunicabilidades, tentando se firmar e entrar em contato consigo mesmos.

Essa reflexão agregada ao roteiro (que, de mais a mais, se efetiva até bastante simples), é essencial para evidenciar o estudo de personagem acurado que é feito pelos diretores Mariana Bastos e Esmir Filho, e como as escolhas se mostram difíceis para personagens que tendem a esquivar a todo o tempo de se revelarem. No segmento de 2006 (lançado como curta nesse mesmo ano, com relativo sucesso na web), por exemplo, há dois adolescentes se autodescobrindo, mergulhando de cabeça nas experiências, sobretudo Caio com a sua bissexualidade. A ambientação é intencionalmente estimulante: a São Paulo notívaga, hipercolorida, repleta de tipos exóticos e sons confusos.

Em 2013, um reencontro, e o efeito do tempo já se mostra muito presente nas escolhas de Caio, prestes a se casar. E isso enseja os diálogos mais espontâneos e naturalísticos de todo o filme, com os personagens discutindo sobre as dissonâncias do amor e do compromisso, tão opostos em suas posições, tão reprimidos naquilo que realmente sentem.

Com o segmento de 2016, se apresenta um ultimato em terras germânicas: tanto um como o outro, aos trancos e barrancos, buscando firmar uma autoindependência que não se concretiza facilmente (Mari não ter um lar para chamar de seu traduz muito do seu senso movediço de identidade), precisam finalmente abrir os olhos para dez anos de encontros e desencontros. A partir daqui, uma mudança de rumos do filme se interpõe, até talvez contribuindo para que este perca um pouco do seu impacto intimista. No entanto, é algo que precipita uma mudança fundamental da relação dos personagens, que os moverá, de uma maneira ou de outra, para um caminho diferente da negação dos próprios sentimentos.

Sentimentos represados surgindo em meio ao lisérgico verde germânico.

Se ao final a sensação é de incompletude, é porque nem todas as relações que não se concretizam – finais felizes utópicos – precisam deixar de existir. Se ressignificam, transformam, às vezes renascem até mais fortes. Tal qual o fluxo de mudanças que a vida revela ser.

Notas

Média