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Sozinhos na imensidão alienante

Arábia()

Classificação: 16 anos

Estréia: 05 de Abril de 2018

Genêro: Drama

Nacionalidade: Brasil

Duração: 1h 37min

Nota do crítico

Crítica

Nós estamos todos sós

Há quem relute em aceitar que o cinema, enquanto produto de entretenimento, mobilize sensações, crie experiências subjetivas, mexa, enfim, com os sentimentos mais íntimos. Arábia (2017) está aí justamente para mostrar o contrário, em um relato intimista e poderoso sobre solidão e alienação laboral.

O trabalho dos diretores Affonso Uchoa e João Dumans rodou festivais pelo Brasil, angariando prêmios importantes do cinema nacional. Recebeu críticas bastante positivas da imprensa, inclusive internacional, criando, ainda que não tenha se concretizado (O Grande Circo Místico de Cacá Diegues é o tapa buraco da vez), a esperança de um forte concorrente ao Oscar vindouro. E o mais importante: é um filme que tem grande chance de cair no gosto do público.

Em grande parte por cunhar uma caracterização que facilmente induz identificações: a jornada do homem comum, brasileiro, em forma de road movie  melancólico. Sobre o jovem Cristiano (o ator novato Aristides de Sousa) e seus desejos de desbravar o mundo, alguém inicialmente repleto de expectativas. A vontade de explorar todos os rincões e ermos de terras distantes, como precedente de um futuro promissor, de atrativos e fascinações, apenas imaginados. E, em contraposição, a tragédia de descobrir que (sobre)viver pode ser mais doloroso do que se pensa/sente.

Na terra dos marginalizados não há redenções possíveis.

A peregrinação por esse recorte da vida de Cristiano não é fácil, mesmo que da perspectiva de quem a vê na tela. Passa pela mal fadada ressocialização após o cárcere, sem um mínimo de apoio ou perspectiva. Expõe a anestesia angustiante do menos-valia diário, o eterno embate no trabalho entre explorados e exploradores. Revela, ainda que breve, um pequeno fio de luz (o idílio romântico com Ana), uma ilha em meio ao turbilhão de incertezas, ao vazio sem fim. Para finalmente descobrir que mesmo o amor não é suficiente como a resposta que tanto busca.

Ao final, tudo o que resta é a consciência recém desperta, imatura, querendo ver além do que os olhos tem mostrado até então. E a vida que ainda resta ser vivida.

Grosso modo, Arábia é – condensado em pouco mais de 90 minutos – o que todos nós sentimos em uma noite insone. A confusão de existir, buscar e não encontrar o seu lugar no mundo.

Definitivamente, é um filme que custa a terminar em nossos pensamentos.

O cinema brasileiro flerta com a genialidade

Faltou pouco para Arábia ser uma obra-prima. Talvez um trabalho de atuação menos amador. Ou uma melhor amarração entre o desfecho e o núcleo narrativo aberto no prólogo da história, abordando outro grupo de personagens (ao mesmo tempo, uma introdução necessária, principalmente por sublinhar que os anseios de Cristiano não são exclusividade de sua condição segregada).

No entanto, são tantos aspectos reflexivos (as músicas plangentes) e técnicos (elipses temporais que tendem à distorcer a noção de linearidade) construídos com expertise, que fica difícil não alçar este filme ao patamar das grandes produções nacionais dos últimos anos. Merece ser apreciado em cada minuto de projeção.

Notas

Média