Pular para o conteúdo

As diferentes perspectivas de Bruxa de Blair

Bruxa de Blair(The Woods: Blair Witch)

Estréia: 15 de setembro de 2016

Genêro: Terror

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 30min

Nota do crítico

Crítica

Passaram-se 17 anos para que Bruxa de Blair (The Woods: Blair Witch, 2016) retomasse ao que era sua maior virtude: a maneira de contar uma história de terror. Causa um certo incomodo aos fãs que se impressionaram com o primeiro filme quando relembram A Bruxa de Blair 2: o Livro das Sombras (2001), que não dialoga com a estética narrativa do sucesso de baixo orçamento A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999) dos diretores Daniel Myrick e Eduardo Sánchez.

Porém, esse tempo foi longo o suficiente para que outras obras adotassem essa estética. Cloverfield – Monstro (2008), Contatos de 4º Grau (2009) e a franquia Atividade Paranormal (2007-2015) beberam na fonte da estética amadora. Mesmo A Bruxa de Blair não foi pioneira no que seria conhecido como “found footage”, ou seja, registros audiovisuais encontrados e que relatam os dramas da equipe de filmagem.

Neste novo capítulo de Bruxa de Blair fica uma estranha sensação de continuação da franquia mas que acaba soando como um remake menos inspirado da obra original. Novamente se trata de um “found footage” que desta vez não são apenas fitas mas também vários cartões de memória. E a narrativa se inicia com a protagonista Lisa (Callie Hernandez) que segue os passos do esperançoso James (James Allen McCune) em busca pistas de sua irmã Heather, personagem desaparecida na floresta e retratada no primeiro filme. Juntamente ao casal Ashley (Corbin Reid) e Peter (Brandon Scott), vão ao limite da cidade Burkittsville (antiga Blair) e encontram os jovens excêntricos Lane (Wes Robinson) e Talia (Valorie Curry) que voluntariamente decidem guiar o grupo para adentrarem na floresta amaldiçoada.

Soluções de câmera: o narrador, o indivíduo e o coletivo

O tempo entre o primeiro filme e esta continuação também foi relativamente longo na escala da evolução tecnológica. Os personagens utilizam diversos equipamentos que por um lado trouxe mais opções de imagens, por outro são subaproveitadas, perdendo a perspectiva dramática (como na utilização do drone e da câmera infravermelho).

Mas é interessante analisarmos a disposição das câmeras e seu papel dentro da construção narrativa desta história. Os forasteiros liderados por James possuem uma microcâmera fixada na orelha que traz o ponto de vista dos personagens, como nos jogos de tiro em primeira pessoa, deixando as mãos livres para manusear os objetos. Todavia, existem dois elementos fora deste grupo, o casal misantropo Lane e Tali, que possui sua própria forma de captação de imagens: uma DV Camera bem antiga.

É interessante ver o recorte do espaço por meio dessas duas estéticas: a equipe de James com sua captação em alta definição e os guias com suas imagens com qualidade inferior, o que podemos intuir que este recorte também são da forma que cada grupo possui em perceber a realidade em sua volta. Os áudios captados diferem, revelando confissões e desavenças entre os dois grupos.

Também há outros equipamentos como a já citada câmera no drone e infravermelho, que não possuem um olhar subjetivo como as microcâmeras mas ao olhar do narrador, descritivo e imparcial. Porém, há na personagem Lisa, no início e até a metade do filme, a representação física do narrador. Responsável pela preservação do material audiovisual, encarregada também de pôr as baterias nos equipamentos e manejar a câmera DSLR (máquina que filma e fotografa com lentes robustas), Lisa tenta registrar os acontecimentos de forma imparcial.

Justamente a câmera DSLR que ela carrega nas mãos costuma registrar todos no mesmo enquadramento, alternando o foco nos personagens ao falarem entre si (normalmente em situações de conflito) ou desfocando o rosto de James no momento de profunda aflição. Gradativamente, Lisa abandona essa função de registro objetivo e a vemos no ponto subjetivo de sua microcâmera.

Cada câmera tem seu papel na narrativa. O foco/desfoco da DSLR evidencia os conflitos entre os guias e os estudantes (Foto: Divulgação)
Cada câmera tem seu papel na narrativa. O foco/desfoco da DSLR evidencia os conflitos entre os guias e os estudantes (Foto: Divulgação)

Logo após criar o clima de documentário

Bruxa de Blair também traz na opção estética com a tentativa de conquistar a “suspenção de descrença” do público. Esse termo refere-se ao engajamento do espectador pela narrativa do qual está em contato, como se aquilo que vê fosse “real”. Mas gradativamente as características técnicas se tornam menos verossímeis em sua produção para dar lugar ao terror psicológico e visual.

No início do filme, quando apresentam a equipe, as motivações e os testes com os equipamentos, os cortes são secos e desconcertantes. Em algumas cenas em uma festa, o áudio fragmentado dá a sensação de que estamos diante de um material bruto. Quando os personagens estão atravessando um pequeno rio e se aprofundam na floresta, o filme mostra diversas imagens e a voz em off dos personagens relatando suas impressões do local, o que significa que houve um trabalho de edição um pouco mais cuidadoso para este momento e a intenção de construir o clima de terror.

Nos momentos finais da história, há certas liberdades como a inexistência dos cabelos em cima da microcâmera, algo que não deveria acontecer já que ela fixada na orelha de uma das protagonistas. Afinal, quem vai se ligar nesses detalhes diante de uma ameaça sobrenatural? Neste momento, a “suspensão da descrença” do público deve ser completa.

A sensação de terror imediato atropela erros de continuidade como os cabelos que encobrem a câmera fixada na orelha da personagem (Foto: Divulgação)
A sensação de terror imediato atropela erros de continuidade como os cabelos que encobrem a câmera fixada na orelha da personagem (Foto: Divulgação)

O filme também possui elementos de terror nada sutis comparados ao filme original: uma noite que nunca finda, relâmpagos que adentram à casa assombrada e a presença de uma criatura que, se olhar diretamente para ela, será morto – um mote bastante significativo em um filme que funde o ponto de vista do personagem com o espectador.

Bruxa de Blair tenta organizar o caos das imagens e dar dinâmica ao gênero que consagrou o filme que se espelha. Mesmo com o cuidado da direção e edição, o filme é prejudicado por um roteiro com personagens rasos e a insistente necessidade de explicar tudo o que acontece naquela floresta proibida.

Notas

Média