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As viagens de Agnès

Visages, Villages(Visages, Villages)

Classificação: Classificação indicativa livre

Estréia: 25/01/2018

Genêro: Documentário

Nacionalidade: França

Duração: 1h29

Nota do crítico

Crítica

 Devido a meu interesse pela língua e cultura francesa, sempre gostei muito dos filmes e documentários produzidos na e sobre a França. Assim, quando soube que o documentário “Visages, Villages”, vencedor da categoria Golden Eyes em Cannes, estava entre os cinco finalistas da categoria Melhor Documentário do Oscar 2018, fiquei ansioso para assisti-lo.

O filme já trazia o aspecto interessante de ser co-dirigido por Agnès Varda, uma histórica fotógrafa e cineasta belga, e pelo fotógrafo e muralista J.R., numa parceria curiosa, já que une um artista de rua com uma veteraníssima diretora da velha escola francesa de cinema.

Quando se une os dois conceitos, “documentário” e “francês”, poderíamos imaginar infinitos temas, desde algum aspecto da riquíssima história da França até os famosos pontos turísticos do país. Por isso, somos surpreendidos desde o primeiro minuto do filme com os inusitados “não-encontros” dos dois cineastas, até a idealização do projeto, uma viagem sem roteiro, para conhecer lugares e pessoas – e a história por trás delas.

Essa estranha dupla encontrou neste projeto uma simbiose perfeita, naquele que promete ser o último trabalho de Agnès Varda para o cinema, já que os 88 de uma intensa vida pesam bastante. Por outro lado, o entusiasmo de J.R. para o projeto trouxe o impulso da juventude para algo tão intenso quanto efêmero.

Os dois fazem o tour por uma França pouco conhecida, tanto nas telas de cinema quanto nos documentários turísticos. São visitadas pequenas vilas, algumas com pouco mais de cem habitantes, mas que têm uma vida e identidade próprias, e histórias absolutamente inusitadas.

Assim, conhecemos uma antiga vila de mineiros de carvão, onde a última moradora de uma rua que vai ser demolida cede seu rosto, a fachada de sua casa e suas memórias mais queridas para o projeto. O mesmo com um simpático e solitário agricultor, que cuida de sua fazenda e dos vizinhos.

Em outra vila, uma garçonete se torna famosa ao ter sua imagem estampada em tamanho gigante em frente ao restaurante em que trabalha, para orgulho dos filhos. Em uma usina de produtos químicos, o projeto promove um encontro de funcionários que nunca interagiram, ao mesmo tempo em que fica registrado o último dia de trabalho de um deles.

O projeto homenageia as memórias de Varda, postando em um bunker alemão  semidestruído em uma praia da Normandia a foto que a cineasta fez de um jovem modelo, Guy Bourdin, que mais tarde também seria um fotógrafo de sucesso. Curiosamente, o grupo gastou mais tempo para fazer a colagem da foto do que o mar para destruí-lo. O espectador pode se perguntar o que leva alguém a fazer algo tão efêmero? Talvez porque a memória de Varda foi transportada para um ambiente onde um número infinitamente maior de pessoas terá acesso, muito mais do que a simples obra física na praia.

O projeto questiona por que tirar os chifres das cabras, a importância das mulheres dos estivadores, enche de vida uma vila abandonada, até questiona a amizade do famoso Jean-Luc Godard para com Varda, e ainda nos leva a um minúsculo cemitério onde repousa o mais famoso fotógrafo da França, Cartier-Bresson.

Este projeto inusitado e despretensioso, feito com financiamento solidário pela internet, surpreende pela leveza e bom humor com que foi executado, baseando-se fortemente nos diálogos entre os dois diretores, expondo – literalmente – a diferença de visão dos dois.

Embora não tenha uma preocupação cênica, os diálogos do filme são interessantes e divertidos. Isso aliado a uma fotografia exuberante, uma trilha sonora perfeita, e uma edição precisa – executada pela própria Agnès Varda – transformam este documentário em uma delicada obra-prima.

Fugindo completamente à linguagem tradicional dos documentários, mas mantendo um surpreendente fio condutor entre cada etapa, “Visages, Villages” é um belo exercício de cinema documental, provavelmente encerrando magnificamente a carreira de uma das profissionais mais prolíficas da Sétima Arte. Poucos podem dizer o mesmo.

 

Notas

Média