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A aventura não tem idade

Os Incríveis 2(Incredibles 2)

Classificação: Livre

Estréia: 28 de Junho de 2018

Genêro: Ação, Aventura

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 58min

Nota do crítico

Crítica

Pixar para adultos

Os Incríveis (2004) vem de uma época em que o surto de heroísmo nos cinemas estava longe de chegar ao ápice, com algumas poucas iniciativas de adaptações dignas de nota (talvez o Homem-Aranha do Sam Raimi ou os primeiros X-Men do Bryan Singer). Os resultados foram os mais promissores possíveis, com um faturamento exorbitante de mais de 600 milhões de dólares ao redor do mundo.

E não só isso: a história de uma família que precisa lidar com a tomada de responsabilidades dentro de seus respectivos papeis (pai, mãe, filhos) em conjunto com o uso acertado dos poderes e as obrigações perigosas da vida de heróis, arrebanhou uma horda de fãs. Pessoas que cresceram esperando ansiosamente pelo retorno dos queridos personagens.

E a cada novo anúncio de sequência da Pixar Animation Studios, de Universidade Monstros (2013) a Carros 2 e 3 (2011 e 2017), só aumentava a expectativa. Junto com a frustração, uma vez que estes eram tidos como divertidos, mas anos-luz distantes do carisma inconfundível de Os Incríveis.

Quatorze anos se passaram, e as crianças de outrora se tornaram jovens adultos. Outra cabeça, novas perspectivas. Com a confirmação da continuação, e a volta da velha sensação de nostalgia, fica a certeza de que a vontade de reencontrar a família Pêra continuou a mesma.

Os apelos de uma vida de aventuras como heróis Vs a responsabilidade familiar volta a mobilizar os personagens.

Vida em família

Nós crescemos, o que não necessariamente ocorreu de forma radical com a família Pêra. Os Incríveis 2 retoma exatamente o final do primeiro filme, no ponto em que este terminou. Em outras palavras, é o mesmo Sr. Incrível, a mesma Mulher-Elástica, e os mesmos Flecha, Violeta e Zezé.

Conforme estabelecido, eles supostamente aprenderam que precisam trabalhar em equipe se quiserem permanecer unidos, inclusive como família. Em tese, uma grande ideia. Na prática, nem sempre algo que funciona, ainda mais quando estão em jogo muitas coisas.

Uma delas, quando se interpõe a questão da divisão de tarefas parentais. Aquelas culturalmente vistas como específicas das mulheres, e aquelas outras (mais pesadas, que exigem que se tenha ação ou se tome iniciativa) que só os homens poderiam assumir.

Sempre levantando questões pertinentes e atuais nas entrelinhas (e até explicitamente), a bola da vez da animação fica por conta da discussão sobre os papeis de gênero.

Então, o que ocorre aqui é o novo desafio de lidar com os papeis de gênero, tanto na hora de enfrentar o perigo frente a frente, como também diante da possibilidade de resolver questões da rotina doméstica. Mais do que a necessidade de retomarem de forma legítima o manto de paladinos em um mundo onde defender a justiça é visto com maus olhos por todos, há o impasse de quem “deve” ficar responsável pela casa e pelo trabalho, se a mãe ou o pai.

Na animação, ele assume o dia-a-dia doméstico, e ela cumpre a tarefa de salvar o dia como super-heroína. Uma escolha narrativa que endossa outra questão relevante e contemporânea, o empoderamento feminino.

Para Beto Pêra, o que resta, a despeito de toda sua resistência, é se adaptar à nova rotina. Seja tentando ensinar as lições de matemática ao hiperativo Flecha, buscando se aproximar da esquiva e explosiva adolescente Violeta, e ainda, precisando cuidar de um bebê em pleno período de descobertas e curiosidade (aqui, dos super poderes). Aliás, cada aparição de Zezé é uma gargalhada garantida, tanto por sua fofura típica, como pelas peripécias quase incontroláveis e destrutivas em que se envolve. Afinal, não é nada fácil cuidar de um bebê.

Explosão de estímulos

E como se tudo isso não bastasse, a animação é divertidíssima. Pelas tiradas supracitadas, pela ação frenética, pelos novos personagens e o retorno dos antigos, e claro, pelo visual deslumbrante. Repleto de cores e luzes muito fortes (além de luzes estroboscópicas aceleradas), o que não faltam são imagens feitas para estimular intensamente todos os sentidos. Não à toa, o simbólico aviso inicial alertando sobre a presença desses estímulos e o risco potencial de provocar desconforto no público.

A “união faz a força” mais uma vez se mostra a melhor saída.

É a marca da evolução técnica da Pixar, usando a tecnologia para criar um espetáculo visual sem precedentes. É até justificável que parte do longo hiato do primeiro filme até o segundo tenha sido investido na qualidade primorosa que é apresentada na animação.

E como cereja do bolo, um bônus mais do que especial. Preparem os lenços: o curta de abertura Bao é uma bela e melancólica analogia à síndrome do ninho vazio e às mudanças que decorrem do ciclo de vida. Mais uma dentre tantas micro histórias lindas de se ver (e sentir).

Se esta sequência de Os Incríveis supera o primeiro? Não há dúvidas de que ela é bem sucedida em vários aspectos. Pode não ter o impacto nem se registrar na memória afetiva tão fácil como ocorreu quatorze anos atrás. No entanto, não se pode ignorar que este é um dos pontos altos cinematográficos do ano.

Notas

Média