Pular para o conteúdo

Batman e Coringa vão à terapia

Vidro(Glass)

Classificação: 14 anos

Estréia: 17 de Janeiro de 2019

Genêro: Drama, Suspense

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 09min

Nota do crítico

Crítica

No início dos anos 2000, quando o nome do diretor M. Night Shyamalan estava em alta, o impacto que Corpo Fechado (2001) causou foi similar ao de seu último trabalho, O Sexto Sentido (1999): um exercício estético salutar, representativo de um bom cinema como há muito não se via, arrematado por uma grande reviravolta fadada a ficar na memória por muito tempo.

Quase 18 anos depois, e fracassos sucessivos no currículo, Shyamalan teve com Fragmentado (2016) a chance de redenção e de se desprender do fantasma do plot twist, com uma história que seria matéria de interesse até para estudiosos da área de saúde mental, ao focar o Transtorno dissociativo de identidade (exceto por certas liberdades tomadas em relação ao tema). Não deu outra: o filme foi um sucesso arrasador de público e crítica.

E como cereja do bolo, a proposta de unificar dois filmes tão diferentes como uma única história, a ser finalizada em uma terceira parte denominada Vidro (2019). Ideia ousada e tendendo a gerar grandes expectativas no público, desde a cena pós-créditos de Fragmentado ao início da divulgação com imagens belíssimas, a mais nova criação do “diretor das reviravoltas” chega aos cinemas. No entanto, será tudo isso que prometeu?

O destaque que o personagem de Samuel L. Jackson recebe faz jus ao título do filme.

Na trama, David Dunn (Bruce Willis) tem uma empresa de segurança junto com o filho crescido (feito pelo mesmo intérprete do pequeno Joseph Dunn quando criança!). Sob uma capa de chuva verde, assume o manto de Vigilante, caçando contraventores e punindo-os com as próprias mãos. Tudo muda quando no seu caminho cruzam o psicopata de personalidades múltiplas de James McAvoy, e uma especialista no tratamento de distúrbios mentais de grandeza (mais especificamente ligados aos alteregos de super-heróis e vilões), encarnada pela ótima Sarah Paulson.

Verdade seja dita, Vidro não é o engodo que as críticas norte-americanas estão pintando. Claro, não tem a atmosfera densa de Corpo Fechado, nem a força da natureza de um personagem só que foi Fragmentado, afinal, agora McAvoy divide o protagonismo com outros dois e sua presença acaba pulverizada.

Apesar disso, é legal ver a cola nostálgica que liga Vidro aos capítulos anteriores, em uma reverência e coerência à mitologia criada que poucas franquias conseguem manter nos dias de hoje. Dialogando muito próximo, inclusive, com os quadrinhos, que ademais, é o material-fonte na caracterização dos personagens e contextualização da história.

Tudo funciona também devido à expertise do diretor. Shyamalan continua dominando muito bem a composição de cenas e constrói um filme de visual atraente, colorido. Só para se ter ideia, as sequências de embate físico usam steadicam acoplada ao corpo dos atores, ou algo próximo disso, além de uma câmera que valoriza mais os espaços ao redor, ao invés das pancadarias propriamente ditas, algo que confere uma singularidade interessante ao filme.

O que acaba prejudicando o resultado final são os furos de roteiro inexplicáveis (aqui, Elijah Price parece não apenas um gênio estrategista, mas também onisciente) e o plot twist triplo, revelador, beirando o surpreendente, e mesmo assim, distante de finalizar adequadamente a trilogia. Daí que o desfecho, provavelmente, não deverá agradar a todos.

O gosto que fica é de que faltou pouco para um novo clássico do gênero dos heróis surgir. De qualquer forma, a obra nos lembra do talento latente do seu criador, e dá esperança de que seus próximos filmes mantenham a proposta de quebrar padrões, optando sempre pela autorreciclagem.

Velhos personagens da trilogia também retornam e ajudam a fazer a trama andar.

Notas

Média