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Caminho sem volta para a barbárie

Desejo de Matar(Death Wish)

Classificação: 18 anos

Estréia: 10 de Maio de 2018

Genêro: Ação, Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 47min

Nota do crítico

Crítica

Charles Bronson, o eterno Paul Kersey

Quando o diretor Michael Winner lançou Desejo de Matar (1974) com o incensado ator Charles Bronson, sem saber, estava preparando o terreno para a década seguinte, o verdadeiro oásis dos filmes de ação brucutu, repleta de histórias de vingança e porradaria exagerada. O que muita gente desconhece é que, a despeito de todo sucesso e vanguardismo, o filme foi baseado em um livro de Brian Garfield lançado apenas dois anos antes, e sumariamente jogado no limbo das boas narrativas.

A história, de constituição simples e eficiente, descreve a vida pacata de um arquiteto de Nova York, Paul Kersey. Pintado como liberal e pouco afeito à violência, sua vida muda repentinamente quando esposa e filha são vítimas de um roubo a sua casa, resultando no assassínio da primeira, e sérias sequelas impingidas à segunda. A partir daí, com tudo que lhe é mais significativo tirado em um piscar de olhos, começa a questionar seus valores e postura, ainda mais quando as forças policiais se mostram tão passivas diante da onda de violência que varre a cidade.

Considerada a mãe das histórias sobre vigilantismo, com personagens comuns buscando justiça com as próprias mãos, olho por olho, dente por dente, o filme causou certo burburinho na mídia quando chegou aos cinemas. Apesar da constituição física e da persona durona de Bronson dificultar identificações imediatas com a realidade, o teor armamentista é evidente, e suscitou diversos debates em torno dos próprios cidadãos tomarem partido, tornando-se responsáveis por sua própria segurança.

Polícia, júri, juiz e executor. Há lugar para tal mote crítico nos dias de hoje, em meio ao inconformismo crescente da população? Diante dos bolsões de insegurança e inoperância da justiça? Se por um lado a resposta parece evidente, de outro, a nova versão do clássico setentista parece propor reavivar a discussão.

Bruce Willis, o novo Paul Kersey

Que fique claro desde já. Desejo de Matar (2018) não é um novo clássico moderno, muito menos um filme exatamente eficiente em sua proposta. Tanto crítica quanto público praticamente o execraram (a irrisória percentagem de aprovação, apenas 17% no site agregador de críticas – Rotten Tomatoes – atesta isso). Também não se pode negar que algumas boas ideias, bem aproveitadas ou não, estão lá.

Em primeiro lugar, sai o Kersey arquiteto, boa praça e bonachão, e entra o Kersey sisudo de Bruce Willis, talvez até um pouco mais passivo do que sua encarnação anterior, mesmo diante dos atritos e provocações cotidianas. Uma vez médico, a responsabilidade do jaleco branco impõe um primeiro dilema interessante: de um lado, a missão juramentada de salvar vidas, não importa de quem, e de outro, os sentimentos soturnos que vão tomando conta de si, à medida que aumenta o impulso de ir atrás dos homens que machucaram sua família. É uma boa sacada, embora tenha sido esperar demais achar que o filme fosse aprofundar o filão.

A dor e o desejo de justiça sugam completamente o bom senso de Kersey, ao ponto de sua existência girar apenas em torno disso.

Uma segunda diferença importante entre as versões, e vantagem da primeira em relação à segunda, é que nunca os criminosos são, de fato, encontrados. Kersey evita assaltos, extermina agressores, bate de frente com a pior escória das ruas, e ironicamente não chega a defrontar em momento algum seus algozes. A violência aqui é meramente catártica.

O Paul Kersey de Willis diverge nesse ponto. Tem seus alvos muito bem determinados, pois a missão a qual se imbui é de buscar uma espécie de compensação direta pela mácula que foi deixada na sua vida. E uma vez estabelecido isso, o filme se despe de certa gravidade, e se transforma em filme de vingança.

O que é uma pena, pois junto de outros, se aproveitados e atualizados de forma correta, alguns aspectos da história apenas sugeridos poderiam gerar ótimas reflexões de cunho social. Por exemplo, no filme de 74, a conversão do personagem de Kersey começa quando passa uma temporada no Texas, estado em que a cultura das armas é poderosa, mesmo nos dias de hoje. No remake, a mudança é rápida demais para permitir fazer qualquer paralelo geográfico com os EUA.

Não obstante, algumas atualizações são muito bem vindas, como o papel muito forte que a tecnologia midiática exerce hoje dia, capaz de produz heróis e celebridades de um minuto para outro, bastando apenas alguns cliques para vídeos viralizarem nas redes sociais. Além disso, é sutil, porém existente, o posicionamento do filme em não glorificar o vigilantismo, o que fica muito claro quando as lojas de armas são pintadas como verdadeiros shoppings centers atrativos, com vendedoras jovens e sexy oferecendo armamento pesado com muitas facilitações.

E ainda há o cartunesco envolvendo as sequências de violência. Cenas de tiroteios com muito, muito sangue. É o torture porn (gênero em que o diretor Eli Roth trabalha muito à vontade), invadindo este tipo de filme. Não deixa de funcionar como catarse, além de muito sabiamente distanciar a realidade do ficcional, pelo menos em alguns pontos chave, ajudando a pontuar outro (como a supracitada cultura das armas).

Em um das cenas mais sádicas do filme, o personagem de Willis tortura um dos agressores da família com requintes de crueldade. Qual o preço e limite de sua vingança?

Não são exatamente 107 minutos que retornarão em forma de epifania fílmica. Tem seus momentos de diversão e reflexão (tímidos). E tem também os clichês de sempre, muito furo de roteiro (com tantas evidências e pistas deixadas nas cenas de crime, é escandalosamente improvável que a polícia tenha demorado tanto a identificar o Ceifador), e uma atuação fraquíssima do “John McClane”, sem muita afinação para momentos dramáticos.

Entre prós e contras, não é um filme tão ruim quanto se poderia achar pelos materiais de divulgação. E nem devidamente desenvolvido, quanto o seu potencial enquanto história atual e crítica deixava antever. Ainda assim vale a conferida. Nem que seja como revival do primeiro Death Wish.

Notas

Média