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Cenas de uma penitência em família

O Sacrifício do Cervo Sagrado(The Killing of a Sacred Deer)

Classificação: 16 anos

Estréia: 08 de Fevereiro de 2018

Genêro: Drama, Suspense

Nacionalidade: Reino Unido, Irlanda, EUA

Duração: 2h 01min

Nota do crítico

Crítica

A estranheza desconfortável de Yorgos Lanthimos

Lanthimos ainda não tem um currículo muito profícuo em quantidade, muito embora o anúncio de trabalhos novos gere certo burburinho de antecipação, face ao tipo de filme que costuma fazer. Um nome que se torna obrigatório quando o assunto em pauta na conversa é estranheza.

Diretor egresso de Dente Canino (2009), filme sobre a preservação da inocência, e de O Lagosta (2015), tragicômico conto sobre os imperativos dos relacionamentos amorosos, Lanthimos criou dois exemplares que provam a tese de que os caminhos da narrativa fílmica nem sempre precisam perpassar o sentido lógico. Pois que, além de metafóricos e de terem por base a lente naturalística, ambos flertam com a ampliação de cenas cotidianas, conferindo ares de bizarrice às histórias contadas, ao mesmo tempo em que dá a entender que a realidade mostrada é espelho da nossa.

Seu mais novo trabalho, O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), não foge à regra, e apresenta mais uma vez a perspectiva da desconstrução para apurar a atenção do público às mazelas que permeiam a existência humana. Mesmo que sejam aquelas que se infiltram no DNA da família perfeita, corroendo-a, destruindo aquilo que a faz tão fundamental no imaginário das pessoas.

A sinopse, se escrita literalmente, além de não necessariamente tornar claro as coisas, ainda pode causar antipatia à primeira vista: cirurgião competente de um grande hospital mantém uma proximidade atípica com um adolescente. Enquanto este se torna cada vez mais intrusivo, um sentimento de desconforto se instaura, ao ponto de afetar a família do Dr. Murphy.

E se isso já não fosse suficiente, “o grande pecado” do médico é descortinado. Algo que exigirá reparação, mesmo que isso implique em chegar até os limites de sua própria sanidade. Mesmo que precise admitir o crime que cometeu, para finalmente alcançar a redenção.

A relação estranha entre os personagens de Farrell e Keoghan suscita a ideia de quebra de tabus.

Crime e castigo e relações de poder

Muito se tem falado sobre O Sacrifício do Cervo Sagrado ser uma grande metáfora sobre a necessidade de remediação para um pecado cometido. Uma mensagem não tão difícil de compreender, e de certa forma já vista em seus filmes anteriores, sobre o preço que as pessoas devem pagar, o que representa em última análise o fim da inocência.

O que talvez não seja tão óbvio é como o roteiro (coescrito pelo diretor grego) faz questão de bater nas teclas das relações de poder. Nesse sentido, o personagem de Farrell é um ser passivo, sujeito aos comandos do adolescente, mas também da sua própria esposa, por quem sempre está sendo corrigido, bem como do filho mais novo, o “reizinho da casa”, cujas vontades acabam sempre preponderando, não importa o quanto possa ser ameaçado de punição.

Anula-se a vontade do indivíduo. Ao mesmo tempo, ele vai se tornando mais e mais sujeito a domínios e manipulações, que poderão não ter mais volta. E não seria isso parte da concepção da essência humana, pelo menos a de muitas pessoas, patriarcas ou matriarcas de famílias tidas como ideais? Seria essa voz (tida como mantenedora da integridade familiar) apenas uma idealização?

Nicole Kidman aproveita a temporada de boas atuações para entregar uma personagem que traduz eficientemente o domínio da autoridade familiar.

Tais questionamentos, longe de serem respondidos, convivem com o desconforto diante de uma história que não se furta de chocar a todo o momento. Seja pela construção estética, que passa pelos ambientes brancos assépticos; pela distorção proposital da imagem, tornando os personagens pequenos diante dos acontecimentos, ou acompanhando-os como se o público fosse mero observador voyeur da tragédia humana; pela apatia que toma conta das atuações e diálogos, isentos de todo e qualquer tipo de emoção; ou ainda, pela música incidental desconfortável, uma batida que retesa os nervos, dando o tom de desconjuntura às cenas que se sucedem.

Sejam, também, pelas muitas cenas feitas para chocar, sem medo ou restrições do nojo ou outro sentimento que pode ser provocado. Aqui, personagens tomam decisões ou ações difíceis de serem aceitas como razoáveis, o que torna algumas interações intencionalmente improváveis.

Além de que o filme não se furta de também causar choque mostrando certos tabus sociais, naturalizados como fantasias implícitas. A própria relação do médico com o adolescente tem ares de algo incestuoso; a sequência de sexo entre o médico e sua esposa, emulando um corpo anistiado, ou morto, sugere necrofilia. Ambas, cenas difíceis de digerir.

O corpo como uma espécie de autômato – como sugere a próprio contexto da Medicina ao qual o personagem de Farrell faz parte – é martelado à exaustão, atestando também a ideia de Ciência como lente que artificializa os corpos.

No mais, não é um filme para todos os estômagos. A obra não se atém a uma narrativa coesa, nem a convenções fílmicas. O que torna este produto passível de revisões para ser melhor compreendido, posto que há certamente muitos outros aspectos a serem (ou tentados a ser) entendidos. Até lá, fica a sensação de incômodo diante de uma tragédia familiar.

Notas

Média