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Coringa: Uma Faísca Para O Caos

Coringa(Joker)

Classificação: 16

Estréia: 3 de Outubro de 2019

Genêro: Crime, Drama, Thriller

Nacionalidade: Americana

Duração: 2h 2min

Nota do crítico

Crítica

Uma das lendas mais conhecidas em torno da figura do Coringa é a de que o personagem teria como inspiração o palhaço Gwynplaine, interpretado por Conrad Veidt no filme “O Homem que ri” (The Man Who Laughs, 1928). Baseado no romance de Victor Hugo, o longa conta a história de um jovem que fora mutilado e por isso carrega em seu rosto um sorriso estático.

Conrad Veidt em “O Homem Que Ri” ao lado do Coringa das HQ’s

Independente de a lenda ser verdadeira ou não tanto o Coringa de Joaquin Phoenix quanto o personagem de Veidt carregam em seus sorrisos algo que passa bem longe da alegria. Além da depressão crônica, Arthur também possui uma condição neurológica que faz com que ele tenha crises de riso em momentos de stress emocional, o que confere à sua famosa gargalhada fortes tons de melancolia. Assim como Gwynplaine, Arthur carrega um sorriso que o incomoda e em certos momentos o envergonha de maneira torturante.

Joaquin Phoenix traduz o sofrimento de Arthur magistralmente. Metódico, o ator constrói o personagem de maneira ritmada. A entonação de sua voz, seus maneirismos e sua expressão corporal acompanham a espiral descendente de Arthur à medida que sua condição mental se agrava na ausência do tratamento médico adequado.

A figura esquálida do personagem, ao mesmo tempo desperta compaixão e repulsa, seus movimentos por vezes se assemelham a uma versão distorcida e macabra dos grandes dançarinos do cinema clássico como Gene Kelly e Fred Astaire. As composições da violoncelista islandesa Hildur Gudnadóttir embalam os delírios de Arthur e criam a tensão necessária para imergir o espectador na trama.

Aliada a estes elementos, a fotografia e a direção de arte criam uma Gotham City pálida e sombria em tons amarelados que refletem a crise social na qual a cidade está mergulhada. Em vários momentos é mencionada a greve dos lixeiros, resultante do descaso com que os governantes vêm tratando a cidade. Sem serviços básicos, dominada pela criminalidade, com suas ruas cobertas de lixo, a ponto de ser anunciada uma infestação de ratos gigantes; Gotham é um lugar que enfrenta uma tensão permanente.

Neste ambiente, Arthur tenta conviver com seus problemas neurológicos ao mesmo tempo em que procura se inserir na sociedade, realizar o sonho de se tornar comediante de Stand-up e cuidar de sua mãe. Apesar de seus esforços, o personagem pouco consegue fazer para lidar com as estruturas sociais e políticas ao seu redor e a maneira como elas permeiam e afetam sua vida pessoal.  Consciente de sua condição neurológica, Arthur busca tratamento e toma regularmente a medicação prescrita, mas pouco pode fazer quando o serviço social responsável pelo atendimento público é cancelado, um paralelo doloroso com a realidade atual.

Robert De Niro interpreta “Murray Franklin “

Arthur e sua mãe têm como única diversão assistir o comediante Murray Franklin (Robrert De Niro). O talk show funciona como uma crítica à mídia, que ao mesmo tempo em que mantem os espectadores entretidos se sustenta com a humilhação pública de pessoas desviantes do padrão comportamental aceito socialmente.

Imersa na violência, Gotham é praticamente um barril de pólvora prestes a explodir. A tensão chega ao ápice quando Arthur comete seu primeiro assassinato; a morte de três executivos da Wayne Enterprises se torna o catalisador para uma revolta popular que faz com que reivindicações inicialmente justas sejam transformadas em motivo para uma selvageria desmedida por parte da população. O abandono e a barbárie aos quais estes cidadãos são submetidos acabam por atingir até mesmo aqueles que pareciam estar imunes a  todo aquele caos, de maneira autodestrutiva, na tentativa de se impor os cidadãos acabam por sucumbir à monstruosidade.

Coringa está em exibição na rede Cinépolis Natal.

Notas

Média