Pular para o conteúdo

Pais, filhos e os socos que a vida dá

Creed II(Creed II)

Classificação: 12 anos

Estréia: 24 de Janeiro de 2019

Genêro: Drama, Esporte

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 10min

Nota do crítico

Crítica

Rocky (1977-2006), franquia que começou como uma ode ao sonho americano, construído utopicamente à base de muita vontade e determinação, e que prosseguiu como um ameno guilty pleasure, arrebanhou toda uma geração de cinéfilos. Gente que lembra com carinho a jornada errática (e por vezes feita de vergonha alheia) do Garanhão Italiano.

Não por menos, o revival de 2015, Creed: Nascido para Lutar, operou com maestria todos os signos familiares, trazendo uma atmosfera toda pautada na cultura negra americana, e finalmente se livrando das obrigações protocolares de seguir uma mitologia ao pé da letra. Não que não haja nostalgia (há bastante, por sinal!). Só que Creed usa como palavra de ordem a ousadia, e por isso, foi bem sucedido com críticos e público.

Creed II, por outro lado, parece querer mergulhar mais fundo na memória afetiva, se ancorando quase que totalmente no anacrônico Rocky IV (1985), mesmo que consiga deslanchar como produto mais ou menos independente. Daí toda a cartilha de referências a ser seguida na trama sobre o retorno das escolhas e perdas do passado.

Na história, após uma gloriosa consagração com o título mundial de boxe, Adonis é desafiado pelo filho (o gigantesco e desconhecido Florian Munteanu) do icônico Ivan Drago (Dolph Lundgren), lutador que, após ter perdido para Rocky, caiu em um amargo ostracismo, 30 anos antes. Ao mesmo tempo, Adonis precisará lidar com os vieses da paternidade e o peso de honrar o legado de sua própria figura paterna.

Rocky Balboa, figura central em seis filmes, agora assume um papel coadjuvante que revigora a franquia, ao mesmo tempo em que os ares paternais assumidos dão uma dimensão ao personagem nunca antes explorada.

Como um todo, o filme gira em torno da necessidade de ser olhado e reconhecido como valoroso. Viktor Drago por seu pai. Adonis por Rocky, ainda que haja um senso de responsabilidade em relação ao lendário Apollo Creed. Rocky em relação ao melancólico distanciamento que mantém do filho e neto. Entrelinhas, estamos falando de pais omissos e filhos carentes, em constante órbita divergente. Nisso, o roteiro é bem sucedido, não há dúvidas.

Sobre Creed II também se pode destacar a presença forte de Dolph Lundgren. Parece que finalmente virou ator! Conseguiu dar credibilidade e profundidade ao seu personagem. Já Adonis (o bom Michael B. Jordan), continua o mesmo personagem mala do primeiro filme: pelo visto, não aprendeu muito com os reveses enfrentados. Além disso, os embates físicos são bem coreografados, tensos, embora não tão bons quanto os dirigidos por Ryan Coogler em 2015.

No mais, apesar da boa sacada de explorar uma história sobre a relação pais e filhos e legados, fica a sensação de que a franquia já explorou tudo o que poderia explorar. Prova disso é que o dilema central não pareceu tão emocionante quanto no primeiro filme. E alimenta a incerteza do caminho que a franquia irá seguir, posto que é praticamente certo que haja mais continuações.

Em tempo, não tem nenhuma cena de Adonis desembarcando na Rússia ao som de Burning Heart (não que fizesse sentido algum resgatar a datada canção para os dias hoje. Seria apenas um afago para os incautos nostálgicos!).

Cena de Rocky IV. Uma das referências de Creed II traz de volta a atriz Brigitte Nielsen, ex-esposa de Sylvester Stallone.

Notas

Média