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O grande nada de Gaspar Nóe

Clímax(Climax)

Classificação: 18 anos

Estréia: 31 de Janeiro de 2018

Genêro: Drama, Horror

Nacionalidade: França, Bélgica

Duração: 1h 35min

Nota do crítico

Crítica

Que o diretor argentino Gaspar Nóe tem uma percepção muito peculiar sobre as pessoas e as coisas, isso é fato sabido por todos. Não é sem surpresa que o seu mais novo trabalho, Clímax (2018), seja uma síntese fiel do seu trabalho de transgressão, visual e moral. Afinal, é o mesmo cineasta que chocou ao detalhar o abate de um cavalo em Carne (1991), reproduziu um estupro em Irreversível (2002), e fez um filme com sexo explícito em 3D (Love, 2015), vendendo-o como produto de cinema alternativo.

Em Clímax ele se atém ao mínimo de roteiro possível para criar uma experiência de desconforto, e colocar o público no papel de testemunha passiva e perturbada. O ponto de vista de pensar e sentir o incômodo vivenciado pelos personagens, sem se importar muito se o resultado flerte diretamente com o excessivo e o mau gosto.

Para isso, ele joga em um mesmo caldeirão uma premissa envolvendo uma coletividade (um grupo de dança, comemorando o fim de uma etapa de ensaios), um gatilho que os faça se comportar sem freios racionais (uma bebida compartilhada, em cuja mistura alguém adicionou algum tipo de alucinógeno), personagens de etnias, sexualidade e ideologias diversas, e pronto: tem-se a fórmula supostamente ideal para dissecar como seriam os indivíduos dando vazão aos seus verdadeiros “eus”, expondo a barbárie dentro de si e, além disso, a imagem de intolerância e preconceitos que parece intrínseco a cada ser humano.

A dança une, mas também põe em evidência os choques culturais e o grotesco da convivência humana.

Tinha tudo para ser uma análise sociológica pertinente e atual, não fosse pela pretensão do diretor (um exímio artesão visual, verdade indiscutível) em brincar com as experiências sensoriais, de modo a formar uma cacofonia cansativa. Quer dizer, há muita coisa poderosa em cena, do ponto de vista da cinematografia, aspectos técnicos que saltam aos olhos: planos-sequência, muitos planos com câmera plongée, além de cortes secos em meio a diálogos naturalistas. Sem contar a sequência inicial de dança, um primor de corpos em frêmito, movimentos e suores.

O problema é o abuso de tais recursos, por melhor concebidos que sejam, esvaziando a mensagem questionadora do filme. Só para se ter ideia, o filme exibe os créditos de elenco e equipe de produção duas ou três vezes ao longo da película, com fontes e cores das mais diversas. Quererá Nóe sugerir que há um filme, dentro de um filme, dentro de um terceiro filme (cada um transmutando níveis de energia orgástica cada vez maiores)?

Sendo um filme que almeja transgredir, Climax não consegue fugir das instâncias da obviedade e do didatismo. Seja apresentando seus personagens (uma gravação em uma velha TV, em uma estante cercada de livros e VHSs que redundantemente já explicam o que vem a seguir); seja colocando todo o elenco para beber a tal sangria psicodélica, assim, como se em um passe de mágica todo mundo quisesse bebê-la ao mesmo tempo; seja tentando criar tensão em torno de uma criança, cujo destino é o mais previsível possível.

Entre pontos falhos e qualidades, ambiguidades e contradições, Clímax já tem seus ferrenhos defensores, E isso não é ruim, salvo pelo fato que é bom ter em mente que nem todo o choque tem um objetivo maior. Muitas vezes é só o choque pelo choque mesmo.

Notas

Média