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A arte de seguir cada vez que o mundo diz não

Roma(Roma)

Classificação: 14 anos

Estréia: 14 de Dezembro de 2018

Genêro: Drama

Nacionalidade: México

Duração: 135 min

Nota do crítico

Crítica

Memórias de infância podem carregar o doce fardo da saudade, enraizado no cheiro caricato da casa dos pais, dos avós, no barulho do carro velho, na bagunça no banco de trás, nas inocentes brincadeiras de rua, nas viagens de férias, nas brigas com os irmãos, no afeto pelo animal de estimação, no carinho recebido da babá, e de tantos outros ícones que permeiam nossa cabeça, como um filme em preto e branco sem começo, meio e fim.

Foi com essa premissa que o aclamado diretor Alfonso Cuarón se inspirou para escrever e dirigir Roma, seu mais novo longa, recheado de lembranças de uma fase inesquecível de sua vida.

O filme foi rodado no bairro que o intitula, Colonia Roma, na Cidade do México, onde Cuarón viveu sua infância, na década de 1970, com direito à recriação de todo o cenário socioeconômico da época. Ao passo que o México sediava uma Copa do Mundo e o Brasil se sagrava tricampeão mundial, o país afundava na sua desigualdade social, enaltecia práticas machistas e vivia o auge da repressão política e militar, em um dos capítulos mais tristes de sua história: a Guerra Suja, que tanto perseguiu estudantes oposicionistas.

Toda essa dicotomia é bem retratada, com maestria, pelo cineasta, que conciliou outros elementos antagônicos para encontrar em Cleo, mulher pobre, empregada doméstica de uma tradicional família de classe alta, e em Sofia, socialite desprezada pelo marido e mãe de quatro filhos, a materialização da injustiça social e moral no dado contexto histórico.

Duas jovens fortes que habitam o mesmo lar de maneira tão contraditória, mas que arraigam uma luta tácita e uníssona por dignidade num mundo machista, cada qual em sua realidade. Não por acaso, em uma das cenas mais emblemáticas da película, engolimos a seco a afirmação que “nós, mulheres, estamos sempre sozinhas”, para talvez explicar o que se consolida como atemporal: a prisão feminina em seu caráter mais silencioso, subalterno e impotente, mas que não impede que a vida siga com tais adversidades.

A propósito, Cleo é a personificação da descendente indígena Liboria Rodriguez, que trabalhou na casa da família do diretor e teve participação relevante na sua educação. O filme, inclusive, é dedicado a ela.

Porém, o protagonismo, aqui, não pertence somente às mulheres.

A mansão habitada por todo o elenco é facilmente eleita como protagonista da trama. Sim, a casa é a personagem mais explorada e não poderia deixar de ser, uma vez que sua rotina se reputa no palco de toda tristeza e felicidade vislumbrada na tela. Para termos essa percepção, o olhar da câmera foi primordial ao optar por planos abertos, ângulos panorâmicos, quase nunca estáticos, mostrando ao espectador que existe muita (muita) vida ali, mesmo diante da eventual ausência de seus moradores ou mesmo quando a solidão se sobressai ao lado de várias pessoas. Mérito da direção de fotografia, que também é assinada por Cuarón em uma estreia nada amadora.

Com tamanha sensibilidade, Roma é uma ode ao neorrealismo italiano, que visita elementos poéticos e narrativos, para emular o factual e o ficcional, em sua demasiada simplicidade, conectando dores paralelas, abordando a vida como, de fato, foi. Como, de fato, ainda é.

Vencedor do Leão de Ouro de melhor filme na última edição do Festival de Veneza e agraciado pelas associações de críticos de Nova York e de Los Angeles, Roma é um dos pré-selecionados para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro e tudo leva a crer que deverá receber boas indicações da Academia.

Notas

Média