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Democracia em Vertigem nos pergunta: estamos testemunhando o fim da democracia brasileira?

Democracia em Vertigem(The Edge of Democracy )

Classificação: 12 anos

Estréia: 19 de junho de 2019

Genêro: Documentário

Nacionalidade: Brasil

Duração: 1h 53min

Nota do crítico

Crítica

Democracia em Vertigem é um documentário assustador. Ao fazer o apanhado dos eventos políticos dos últimos anos, o filme nos questiona: estamos assistindo (inertes) aos últimos suspiros de nossa democracia?

O estilo documental da diretora Petra Costa é bastante subjetivo, e ela inclui a si mesma e sua família como personagens que pairam sobre aqueles acontecimentos. Ela narra todo o filme com sua voz suave, da mesma forma que fez em seu outro documentário, Elena (2012).

Costa não é uma narradora imparcial, como muitos espectadores certamente prefeririam que ela fosse, mas também não esconde nada sobre si mesma. Seus pais lutaram contra a ditadura e foram presos, seu avô, por outro lado, era sócio de uma construtora e se beneficiou com o golpe militar de 64.

Petra Costa
A diretora Petra Costa examina os eventos sob o seu ponto de vista.

É a partir dessa dualidade que a documentarista acompanha de perto e analisa o que se passou desde a saída do presidente Lula em 2011 até o impeachment da presidente Dilma Rousseff e posterior vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018.

O trabalho de Costa é realmente monumental, ela teve acesso ao Palácio do Planalto, Congresso Nacional, acompanhou figuras chave como Lula e Dilma em momentos históricos e entrevistou Bolsonaro e outros políticos que na época faziam parte da oposição.

A primeira meia hora de Democracia em Vertigem serve mais como uma reflexão de sua própria autora sobre sua história, expectativas e sua decepção com os escândalos envolvendo o Partido dos Trabalhadores e com a decisão do PT de se aliar ao PMDB em nome da governabilidade.

As coisas realmente ficam interessantes quando o filme começa a perceber um padrão sombrio nos acontecimentos políticos que se desenrolam.

Congresso Nacional
Finalmente os olhos do Brasil se voltam para o Congresso Nacional

O documentário ressuscita a figura de Aécio Neves (alguém ainda lembra dele?) e mostra como ele teve um papel considerável em criar a separação entre direita e esquerda que até hoje assombra o país.

Também mostra um pouco do papel da mídia em normalizar a violência que aos poucos se tornou parte do nosso cotidiano social.

O filme traz novamente à tona conversas telefônicas que revelam a farsa do impeachment e as repete, como se dissesse ao espectador, “escuta isso aqui, escuta bem isso aqui”.

Aos poucos, percebe-se que não se trata de uma luta contra a corrupção, pois a corrupção acontece de ambos os lados, mas de uma derrocada da democracia em favor das poderosas famílias que controlam a mídia, os bancos e as construtoras do país.

O Executivo, Legislativo e Judiciário começam a operar flagrantemente sob suas próprias regras, aplicando ou moldando as leis de acordo com os seus interesses para prejudicar apenas os seus inimigos políticos e perpetuar a corrupção sistêmica do Brasil.

A operação Lava-Jato, que a princípio parecia um avanço no combate a corrupção, logo começa a se parecer com uma farsa.

Por sinal, o timing de lançamento do documentário acabou sendo ideal, já que agora ele pode ser corroborado pelas conversas divulgadas pelo site The Intercept do então juiz Sérgio Moro (hoje Ministro da Justiça) com o então coordenador da Lava-Jato Deltan Dallagnol (hoje, Procurador da República).

Talvez muita gente torça o nariz para o modo como Petra Costa narra os fatos, mas ela mostra algo inegável: as regras democráticas estão cada vez mais frágeis no Brasil. Democracia em Vertigem termina com uma séria reflexão sobre nosso destino como nação: será que estamos caminhando direto para um precipício?

Notas

Média