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Elle est Isabelle Huppert

Elle(Elle)

Classificação: 14 anos

Estréia: 17 de Novembro de 2016

Genêro: Drama/Suspense

Nacionalidade: Alemanha/Bélgica/França

Duração: 130 minutos

Nota do crítico

Crítica

A sensação da última edição do Festival de Cannes aterrissou nas salas brasileiras ainda com o frenesi das cenas do trailer, que já tinha anunciado um muito do que estaria por vir.

Se na prévia já se mostrou impactante, o início do longa culmina por nos assustar com uma brutal cena de estupro, onde a vítima, a poderosa proprietária de uma empresa de desenvolvimento de games, Michèle Leblanc (Isabelle Huppert), é violentada no interior de sua própria casa por um indivíduo mascarado. Sem esboçar qualquer atitude desesperada ou de lamentação ao que acabou de lhe ocorrer, simplesmente limpa os cacos da louça destruída durante o ataque, descarta a sua roupa na lixeira e, ao tomar banho, reage somente ao sangue que sai de seu corpo e que se mistura com a espuma da banheira.

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Calma, não se trata de spoiler. A violência sexual, neste caso, está longe de se consubstanciar em subterfúgios ou cereja de bolo. Aqui, é simplesmente o mote necessário para o desenvolvimento da trama – fato que o diretor, Paul Verhoeven, nunca escondeu: está no trailer, na sinopse e nos teasers.

Antes de tudo, é um filme de personagem. É um filme de atuação. É um filme feito para Isabelle Huppert! Toda a preocupação da produção, aliás, parece centrar-se na construção de  uma caricatura veemente da personagem, colocando o dedo nas suas características mais sórdidas, ao passo que, simultaneamente, a humaniza de tal forma que o espectador é capaz de assimilar e compreender sua frieza e suas angústias.

Fazendo mais que o dever de casa, o mito Huppert detém o controle das ironias, das insanidades e dos tons de voz excessivos em cena. A atriz incorpora um alguém fora dos padrões de classificação, com nuances delicadíssimas, onde o público, completamente manipulado, se delicia com o cair das máscaras de Michèle no decorrer da projeção e muda seus conceitos sobre ela, a cada novo gesto ou descoberta. Repito: o filme é dela!

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Claro que, do primeiro ao último minuto, a escolha de uma palheta de tons sombrios, a cenografia de um casarão quase vazio e a sonoplastia ajudam, também, a corporificar a matéria do que é proposto pelo belo trabalho de direção.

A narrativa, embora apresente o crime em apreço como cerne para desenrolar os caminhos e a dualidade dos conflitos morais da protagonista (fomentar as fantasias eróticas ou os sentimentos de vingança, quiçá os dois), não deixa espaço para compaixões em momento algum da película. O ato do estupro, por ora, é tratado apenas como mais um evento excêntrico de muitos ligados à história pregressa de Michèle, a qual carrega na bagagem um passado assustador, bem problematizado e explorado pelo diretor, principalmente quando posto como consequência do desastre de suas relações interpessoais.

Verhoeven, ademais, não se vê compromissado com o politicamente correto. É plausível como ele constrói um olhar dúbio sobre a tensão e o sarcasmo, seja relacionado à potencialidade dramática ou às reações inesperadas dos atos vistos em cena, não sendo possível, desta forma, sequer qualificar Elle em algum gênero pré-determinado.

É válido ressaltar que o longa se aproxima, também, de um contexto potencialmente crítico da passividade da mulher diante da violência sexual ou da “cultura do estupro”, tema bastante atual, que o cineasta não tem maiores receios de enfrentar, principalmente quando o situa diante de um jogo erótico, dispondo a figura feminina em posição equânime com seus adversários sociais. Porém, para se chegar a esta conclusão, se faz necessária uma leitura honesta do texto fílmico.

Notas

Média