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Somos resistência!

Era o Hotel Cambridge()

Classificação: 12 anos

Estréia: 16 de Março de 2017

Genêro: Drama

Nacionalidade: Brasil, França, Espanha

Duração: 1h 39min

Nota do crítico

Crítica

Constantemente se ouve notícias na mídia sobre a situação de moradores de imóveis ociosos em grandes metrópoles. Indivíduos, atrelados ou não a movimentos sociais de ocupação, que têm no sonho intangível de uma moradia digna uma esperança firme diante de edifícios em situações precárias e indefinidas. Mesmo que a margem de incerteza seja tremendamente alta.

A diretora Eliane Caffé (responsável pelo igualmente cativante Narradores de Javé) transforma em experiência cinematográfica o que seria uma questão social patente e insolúvel. Um relato cru e fidedigno que vai além da mera ficcionalização, se revelando um estudo sociológico assaz impactante. Assim é Era o Hotel Cambridge (2016), docudrama sobre a ocupação de um velho edifício no centro de São Paulo por um grande grupo de sem-tetos, em sua maioria, nordestinos e refugiados de outras nações, como congoleses e palestinos.

O que o extraordinário roteiro faz, a partir da ótica da realidade, é trazer relatos de perseguições políticas e religiosas, guerras, fome, sofrimentos individuais (o suprassumo do flagelo humano), e reuni-los sob o mesmo jugo (ou teto) social. Um microcosmo rico, onde “o(s) diferente(s)” consegue(m) conviver de forma harmônica, dentro de um sistema construído meio que de improviso, mas que funciona a contento, mesmo com as suas idiossincrasias. E ainda que sob circunstâncias tão atípicas, o que inclui a possibilidade iminente de despejo sumário perpetrado pelo Estado.

Fora os atores veteranos José Dumont (a imagem simbiótica perfeita entre o homem do povo e meio, pitoresco e poético) e a global Suely Franco, todo o elenco é constituído por amadores. De fato, sujeitos escalados dentre os moradores que residem de forma “clandestina” no antigo hotel que dá nome ao filme. É a tentativa mais do que bem-sucedida de captar a essência daquelas vidas, com seus ditos espirituosos, interações cotidianas, rusgas momentâneas, e anseios de quem almeja viver em condições mínimas de dignidade. Não à toa, o tom naturalista dita o clima da película, e atrai o olhar do público para uma posição inequívoca de empatia.

Impossível não estabelecer paralelos com a estigmatização que tais grupos recebem, até pela população em geral. Taxados de criminosos, há muito pouca complacência em torno da causa que o filme retrata, e o que suas narrativas demonstram é exatamente o contrário: trabalhadores, famílias e mesmo indivíduos que residem sozinhos, procurando levar suas rotinas em um esquema de normalidade, dentro do possível.

Faces da vida real. Dor e resistência coexistem.

Pelo menos até o momento em que precisam se opor à opressão, quando o filme decide escancarar de maneira contundente a pecha das injustiças sociais, com imagens reais da ação de desocupação do prédio, e as pessoas precisam se levantar em uma praticamente batalha campal, resistindo e lutando. Até o último momento. Algo que, inclusive, está prestes a ser criminalizado como terrorismo através de projeto de lei que tramita atualmente no Legislativo.

E se ao fim de Era o Hotel Cambridge a reação for um misto de estupefação silenciosa e indignação autêntica, tudo bem. Esta é uma obra feita pra descortinar verdades, abrir os olhos, jogar na cara do público a existência dos marginalizados, espalhados em cada canto ou recôndito do país. E que esses merecem muito mais do que a indiferença pungente do Estado (e das pessoas).

Notas

Média