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Existe apatia no espaço sideral

O Paradoxo Cloverfield(The Cloverfield Paradox)

Classificação: 16 anos

Estréia: 05 de Fevereiro de 2018

Genêro: Horror, Suspense, Sci-Fi

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 42min

Nota do crítico


Em um futuro próximo, há uma crise de energia na Terra. A Estação Cloverfield, composta por uma equipe multinacional, testará o acelerador de partículas Shepard, com a expectativa de gerar energia para os países, todos prestes a entrar em colapso. No entanto, o experimento dá errado, danifica a estação e abre um portal para uma dimensão paralela. Agora, a equipe de cientistas precisa encontrar uma maneira de retornar à sua própria dimensão.


Crítica

Nasce o monstro

Quando Cloverfield – Monstro (2008) foi lançado, o produtor J.J. Abrams, hoje conhecido por tocar as franquias Star Trek e Star Wars, não era um nome muito comentado nas rodas cinéfilas. O diretor Matt Reeves (responsável pelos dois últimos – e ótimos – Planeta dos Macacos) era um semidesconhecido. E o elenco, composto por nomes como Michael Stahl-David, T. J. Miller e Lizzy Caplan, isto é, novatos, não inspirava confiança.

Uma década depois o filme é lembrado como uma escolha arriscada e criativa, e que rendeu à Paramount Pictures um respeitável faturamento em torno de 170 milhões de dólares. Talvez muito do resultado favorável tenha sido puxado pela escolha estética que embasa o filme, com uso massivo do recurso found footage (um visual que simula filmagens “encontradas”). Uma nascente e curiosa proposta naquela época, que começava a se difundir por outros gêneros, que não o terror e o suspense.

Tentando emular o sucesso comercial do primeiro filme, o inusitado Rua Cloverfield, 10 (2016) veio à tona, cercado de mistério e de uma austera campanha de marketing. Se propondo a apresentar uma nova visão do desastre destrutivo do primeiro filme, Rua Cloverfield, 10 trouxe uma história de suspense marcada por claustrofobia e paranoia, um passo definidor na franquia no sentido de não focar em um único gênero. No elenco, nomes de peso como Mary Elizabeth Winstead e John Goodman.

O cenário estava formado para este universo ficcional ser explorado com afinco, expandido ainda mais em outros filmes – o que não necessariamente se converteu em uma experiência bem sucedida, como se comentará a seguir.

Cresce o monstro

O Paradoxo Cloverfield (2018), terceira parte da franquia, igualmente cercado em mistério, foi lançado em Fevereiro deste ano, literalmente pousando de paraquedas, anunciado poucos minutos antes de estrear na Netflix (e não nos cinemas, como preanunciado) em um intervalo avulso do Super Bowl. Surpresa e expectativas cresceram por igual, afinal, Netflix é geralmente sinônimo de sucesso, ainda que, na mesma medida, superestimação.

E para frustração comum, o filme se revelou um completo equívoco de concepção, para a crítica e público. Na trama, uma espécie de prequel para os eventos narrados nos filmes anteriores, uma equipe de cientistas singra o espaço com o objetivo de testar o acelerador de partículas Shepard, a única esperança da Terra para uma crise de energia sem precedentes. Tudo dá errado após um acidente, o que gera distúrbios com repercussões interdimensionais, liberando o terror em universos paralelos, além de mantê-los aprisionados em uma dimensão diferente da sua.

Como se vê, a ideia era promissora. Com a proposta consistente de tentar explicar o mistério alicerçado até então – o que para muita gente poderia ser um problema, em deixar tudo mastigado demais –, isso poderia ser o ensejo necessário para construir uma história de horror espacial diferente, repleta de questionamentos instigadores sobre a natureza humana e brincadeiras com paradoxos temporais. Ou, se a intenção era fazer algo mais despretensioso (inicialmente, não é o que parecia), que pelo menos amarrasse as inúmeras pontas soltas que são deixadas, dentro de uma história que deveria ter coerência o suficiente para fechar a maioria delas.

Este terceiro Cloverfield abraça fortemente o gore, com algumas cenas nojentas (mesmo que às vezes pareça gratuito).

Desta forma, com o objetivo de justificar a ideia de dimensões fundindo-se, causando bizarras alterações da realidade, joga-se com o gore e o absurdo de uma maneira que chega a ser infantiloide. Para se ter ideia da quantidade absurda de conceitos que são jogadas de forma aleatória no roteiro, um braço amputado e consciente aparece e desaparece da história em um piscar de olhos, e pior: consegue fazer avançar a trama, resolvendo o impasse em que os personagens se encontravam. A ideia no papel deve ter parecido uma coisa; na prática soou ilógica e boboca.

Algumas bizarrices sem sentido também tomam forma. Qual foi a intenção dos roteiristas?

Além da perda do braço de Mundy (Chris O’Dowd, o alívio cômico sem graça) e o aparecimento de Jensen (Elizabeth Debicki, a inevitável e desnecessária antagonista), ainda se tem que abraçar ainda mais suspensão de descrença com as ações que se sucedem. Aceitando que a estação espacial é a ameaça maior ali, consequência dos bolsões de falha da realidade, pronta a literalmente engolir os personagens, isso se torna um problema notável. O perigo ser tão inespecífico tira a tensão das situações e desafios que vão surgindo.

Tudo descamba para uma progressiva sucessão de tentativas mal fadadas de retorno para a dimensão original. O fluxo de acontecimentos não empolga, e joga com dilemas egoístas, sem uma ínfima possibilidade de criar empatia. É o caso de Hamilton (Gugu Mbatha-Raw), a única personagem minimamente descrita, dividida entre dois mundos (os acontecimentos simultâneos na Terra que vão sendo mostrados são tentativas tacanhas de fan service gratuito). Nada, porém, que anime a torcer por ela.

Gugu Mbatha-Raw, atriz cujo papel central faz a trama avançar, ainda que com uma atuação sem maiores atrativos.

O monstro cansa

Com um roteiro tão simplório que peca em criar tensão, e com soluções bobas e ideias sem sentido, é difícil evitar antever que a franquia começa a dar os primeiros sinais de cansaço. Ou quem sabe, na melhor das hipóteses, foi um exemplar fora da curva, mal executado quando visto de forma isolada.

De uma maneira ou de outra, o quarto filme da franquia já foi filmado, e a previsão é que seja lançado ainda este ano. Não se sabe ainda se via streaming ou nas salas de cinema. Fica a torcida para que este retorne com a inventividade e o clima de mistério, tão caros para uma franquia realmente interessante.

Notas

Média