Pular para o conteúdo

A falácia da tolerância ao intolerante

O Orgulho(Le brio)

Classificação: 12 anos

Estréia: 07 de Junho de 2018

Genêro: Comédia, Drama

Nacionalidade: França, Bélgica

Duração: 1h 35min

Nota do crítico

Crítica

A nova cara da França

Bem mais do que uma país conhecido por sua tradição histórica e cultural, a França hoje é um grande centro multiétnico, em um processo de transformação recorrente e atual que vai de encontro às concepções mais arcaicas que se possa ter sobre a nação.

Hoje, uma parcela significativa da população francesa é constituída por árabes e muçulmanos, imigrantes que há décadas vêm tentando se integrar a um país de costumes tão diversos. Que geraram filhos e estes, por sua vez, outros filhos (as chamadas segunda e terceira gerações de imigrantes), a ingressarem nas universidades e mercado de trabalho, em busca de um lugar ao sol.

De certa forma, é provável que a intenção de O Orgulho (2017) fosse exatamente trazer um pouco de leveza a um tema tão melindroso. Pois que, tratar de tal pluralidade, também implica descortinar preconceitos arraigados na cabeça das pessoas, o que não é fácil e pode incorrer em uma abordagem tendenciosa.

Paradoxo da Tolerância

Enquanto comédia de costumes, algumas das tiradas de O Orgulho funcionam a contento (haverá quem, dentre o público, gargalhará forte). Talvez até a premissa, se bem desenvolvida, pudesse contribuir com a discussão atual em torno da entrada de imigrantes na Europa.

Neila e Pierre, os preconceitos deixados de lado a partir do conhecimento mútuo. Será mesmo?

Na prática, o que se vê é um tratamento obtuso, que deixa vago o debate de ideias, e ainda reforça o famoso Paradoxo da Tolerância (para quem desconhece, o filósofo Karl Popper falava sobre a tolerância ilimitada levar, inevitavelmente, ao desaparecimento da tolerância, uma vez que, como resultado da condescendência, os intolerantes em algum momento subjugarão os tolerantes, e a tolerância junto destes).

No filme, isso se torna evidente em razão de Pierre ser construído como a personificação do anacronismo e do que há de mais detestável dentro da intolerância – misoginia, xenofobia, homofobia. Nada de errado até aí, não fosse vetada uma possível mudança em suas concepções em decorrência dos acontecimentos em torno de Neila.

O que fica, ao final, é que o personagem não amadurece, e permanece tão odioso quanto no início. E pior: é perdoado e aceito, mesmo sendo esse tipo de pessoa! Pior contradição do que isso, impossível. E ainda com o perigoso paralelo com a realidade que pode ser estabelecido, na medida em que o cinema pode ser considerado uma espécie de espelho das tensões étnicas atuais.

E este é apenas um dos problemas do filme. A própria Neila não recebe um desenvolvimento digno, sendo mostrada ao final como mais uma “nova francesa”, uma vencedora com uma história de sucesso, em detrimento da sua herança cultural, em nenhum momento ponderada. Será esse mesmo o tipo de mensagem que pode ser difundido tão impunemente em um filme?

A cantora pop e atriz Camélia Jordana surpreende em ótima atuação.

Daí ser importante, ao vê-lo, saber olhar de forma crítica algumas das suas escolhas narrativas. E acima de tudo, não “engolir” a aceitação ao intolerante como algo positivo, como o filme sugere.


“O Orgulho” fez parte da programação oficial do Festival Varilux de Cinema Francês 2018 e foi exibido em Natal pela Cinépolis Natal Shopping.

Notas

Média