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A força do cinema potiguar

Sem Imagem do filme

Enquanto o sol se põe()

Nacionalidade: Brasileira

Nota do crítico

Crítica

Quanto silêncio cabe em uma relação? Parece enveredar por essa pergunta, o último curta-metragem de Márcia Lohss, produzido pelo Coletivo Caboré Audiovisual. O filme, intitulado Enquanto o sol se põe – que, inclusive, ganhou o prêmio de Júri Popular no Curta Taquary -, teve sua estreia regional no Festival Goiamum de Natal, em junho desse ano.

Entre o abismo que separa Guilhermina (Paula Vanina) e Arnaldo (César Ferrario), a produção explora os silêncios e os ruídos, a melancolia de uma vida incerta e partida, as esperanças e as dores, enfim, a busca dos personagens (pelo outro, mas acima de tudo, por eles mesmos). Diante disso, ela recorre à fé, enquanto ele é envolvido pelo acaso transmutado em arte, em mistério e abstração.

Contrastando com a paleta de cores sóbrias e monótonas que demarcam seu cotidiano ao lado da esposa, o ponto de mutação de Arnaldo (como sugere um dos personagens), é calcado pelo excesso de luz e de cores, visualmente construído pelas obras do artista plástico Ricardo Bahia, bem como pela participação de Titina Medeiros, espécie de oráculo banhado a vinho, que lhe responde àquilo que jamais foi perguntado, descortinando-o.

O vinho, por sinal, é um elemento chave na narrativa, demarcando a transição da trama e a redescoberta dos personagens. Se a água marca o silêncio entre o casal e o suco inspira um movimento de aproximação (a servidão de Arnaldo), é o vinho que, por fim, ativa o estado do corpo que fala, que sente, e que tem saudade – provavelmente daquilo que nunca viveu, encaminhando o curta a um final surpreendente.

Com interpretações marcantes – destaco a naturalidade de César Ferrario (que parece ter superado uma espécie de personagem-tipo construído em trabalhos anteriores); Vânia Maria, com uma força (de povo) típica da latinidade; Ênio Cavalcanti, que mesmo com uma participação pequena tem a potência de, com o olhar, desnudar o protagonista; e Paula Vanina, que ainda que peque pelo excesso de formalidade na voz, nos ganha com a sublime cena do espelho, uma emoção que transborda e nos conduz a olhar junto –, o filme acerta o tom, fazendo jus ao excelente roteiro de Michelle Ferret e Vitória Real.

Enquanto o sol se põe, nesse sentido, é um curta-metragem amparado em questões existenciais, um trabalho mergulhado nas personas, fugindo das obviedades e da exploração caricatural de uma cidade litorânea aparentemente sempre de férias. Fala-se em dores, é verdade, mas também em quebrar as correntes. E ainda que seja difícil, parece supor Márcia Lohss, há sempre espaço para a poesia no processo de reinvenção de si mesmo.

Resumindo, um filme que mostra a força do cinema potiguar.

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