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Gigante por natureza, bobo pelas circunstâncias

Rampage: Destruição Total(Rampage)

Classificação: 14 anos

Estréia: 12 de Abril de 2018

Genêro: Ação, Aventura, Sci-Fi

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 47min

Nota do crítico

Crítica

Relação de amor e ódio com os blockbusters hollywoodianos

Hollywood não é nenhuma instituição filantrópica, contribuindo desinteressadamente com a Sétima Arte. Ela precisa ganhar seus trocados para se manter, e como tal, a cada ano são desembocados uma dúzia de blocksbusters nas salas de cinema, entre pretensos sucessos oportunistas, e as sequências infinitas de franquias estabelecidas.

Sendo assim, não falta aquele filme de robôs gigantes, coloridos e armados até os dentes. Também é quase regra que algum best-seller da literatura para jovens adultos seja adaptado, de preferência se magia ou futuro distópico estiverem presentes. Ou ainda, seguindo tendências mais atuais, a volta dos filmes de símios (seja com os sucessores do King Kong, em remake de clássicos, seja com o retorno à franquia Planeta dos Macacos), e o interesse renovado pelos filmes-catástrofe, febre dos anos 70 e 80, os avós dos arrasa-quarteirões contemporâneos.

E se estes dois elementos estivessem juntos, o quão alto seria o faturamento dos executivos de Hollywood? E se além de tudo isso, em um filme sobre símios gigantes e destruição em larga escala, houvesse um rostinho conhecido e carismático para angariar a simpatia do público?

Integrando tudo isso, temos Rampage: Destruição Total, aquilo que alguns críticos têm chamado de diversão despretensiosa. Isto é, se você tiver 12 anos ou menos, ou quiser desligar totalmente o senso crítico durante a projeção. Caso contrário, o risco de querer sair do cinema no meio do filme é alto. 

O “pipocão” desconjuntado

Rampage, filme, adapta um antigo game dos anos 80, sobre monstros gigantes que tentam sobreviver aos ataques de forças militares. O filme, se é que isso interessa, foca na amizade entre o especialista em primatas, Davis Okoye (Johnson), e o gorila super inteligente George, salvo da mão de caçadores ainda bebê.

Um experimento genético equivocado transforma o gentil macaco em um monstro-mutante furioso. Junto com outras espécies, mais especificamente um lobo e um jacaré, deixa um rastro de destruição em massa em Chicago. Apenas Davis e seus músculos robustos podem deter uma catástrofe de nível global, além de salvar aquele que é o seu único amigo.

Da série “não mexa com quem está quieto”. Ainda mais se esse alguém for o Dwayne Johnson e seu lança granadas a tira colo.

A coisa toda até parece séria, quando resumida. Vista na tela, soa como uma estorinha de Sessão da Tarde. Ainda que haja ação intensa, monstros gigantes e escombros, na mesma medida há ausência total de sangue, sensualidade e linguagem chula. Tão asséptico ao ponto de se questionar a classificação indicativa recebida aqui no Brasil, de 14 anos.

Enquanto isso, as situações vão se sucedendo com a ingenuidade e o timing de um seriado sitcom. Com direito a prólogo no espaço (?!), narrando o acidente com o material genético que geraria todo o caos com os animais; a Joe Manganiello (o futuro Exterminador do Universo DC) posando de vilão truculento que não dura meia hora de filme; a um Jeffrey Dean Morgan engravatado e seu ridículo cinto/coldre de vaqueiro, um anti-herói improvável que só faz volume ao roteiro; e a um par de vilões diabólicos que orquestram todo o plano de atrair os monstros ao centro de Chicago.

Neste ponto da leitura do texto, se você chegou até aqui sem achar tudo minimamente absurdo, é possível que não se surpreenda tanto com o modo como filme reforça a relação entre The Rock e o gorila George. Como anunciado aos quatro ventos pelo material de divulgação, mais do que amigo, George é família. Uma ideia em que se acredita mais pelo protagonista e pela força da repetição, do que pelo sentido da coisa propriamente dita.

Naomi Harris até tenta, mas sua personagem orbita meio apagada em torno de Dwayne.

Dwayne Johnson e George: a força de uma amizade

Sorte do público que Dwayne Johnson, no alto de seus quase dois metros, honrando a alcunha de “The Rock”, esteja no elenco com seus sorrisos de moleque (e sua expressão ameaçadora, quando necessária). Ele é o cara que consegue vender sal no deserto, por sua simples presença. Provavelmente metade do atrativo do filme, se é que exista algum, se deve a ele e a sua “não-atuação”.

Porque, de outro modo, como acreditar que seu personagem poria metade da população de um grande centro urbano em risco em função de uma única criatura, que em nada lembrava o antigo amigo com quem tinha um vínculo? Ou que, convenientemente, ressuscitaria não sei de onde um esquecido treinamento militar para ser usado em uma batalha de vida e morte, um ser humano contra três criaturas gigantes, alteradas geneticamente com o único fito de destruir tudo ao redor?

Amizade verdadeira é isso: não deixar os amigos para trás, mesmo que eles estejam alguns metros acima da altura ideal, espalhando destruição em massa por onde passam.

(Dá para saber o tamanho do nível de jocosidade de um filme quando se vê Dwayne disparando cápsulas explosivas contra as feras, e dá cobertura para George, um gorila pelo menos 30 vezes maior que ele, gritando a plenos pulmões para que fuja. Mais risível do que isso, impossível.).

Enfim, para quem quer ver algo com a desculpa de relaxar, bem, a má notícia é que o filme é hiperativo demais para isso. Se o objetivo for a diversão pura sem compromissos, também não se pode garantir êxito, salvo se for pelo humor involuntário, que nem é lá essas coisas. Se o objetivo for ver explosões e prédios ruindo, talvez este seja o único alento, caso se queira gastar o valor de um ingresso. Há interesse para tudo nesta vida, não é mesmo?

Notas

Média