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Gostosuras, travessuras e a noite mais longa

Halloween(Halloween)

Classificação: 16 anos

Estréia: 25 de Outubro de 2018

Genêro: Horror, Thriller

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 46min

Nota do crítico

Crítica

Se manter no imaginário cinéfilo durante 40 anos, e ainda mostrar vigor e inovação, atraindo novos fãs, não é para qualquer franquia. O feito de Halloween (2018) prova a ideia de que não adianta ter um ícone sem uma motivação consistente. O que é verdade, diante de tantas abordagens ruins que o personagem Michael Myers recebeu ao longo dos últimos anos.

Com a benção do lendário diretor John Carpenter (que entra como produtor executivo ao lado da musa dos slashers oitentistas, Jamie Lee Curtis), e roteiro coassinado pelo comediante Danny McBride, este novo capítulo de Halloween arrisca novos caminhos. Sem perder, entretanto, a reverência aos elementos que tornaram esta uma franquia diferenciada dentro do gênero, não apenas mais um Sexta-Feira 13 genérico.

Na trama, que se apresenta como uma continuação direta do filme de 1978, Laurie Strode (personagem de Jamie Lee) é uma misantropa traumatizada pelo massacre perpetrado por Myers, tantos anos antes, ao ponto de ter criado diversas barreiras emocionais entre ela e a filha (Judy Greer). Enquanto isso, uma equipe de documentaristas pretende entender as motivações por trás dos crimes, indo de encontro mal em forma de pessoa no sanatório de Smith´s Grove.

O mal revive, e com ele, a necessidade de enfrentamento com todas as forças.

O roteiro, simples em superfície, se revela, na verdade, um completo e interessante estudo de personagem. Primeiro, por manter os holofotes quase que exclusivamente sobre Laurie, tornando-a uma vítima sequelada, em eterno ciclo de obsessão. E segundo, por apontar que os efeitos do Transtorno de Estresse Pós-Traumático são extensivos a todas as pessoas ao redor, incluindo familiares e os demais entes do ciclo social.

E como se não bastassem os dois primeiros atos com essa abordagem mais psicológica, o filme prossegue em tensão crescente, tornando-se uma orquestra de suspense narrando uma caçada humana. A partir do ponto em que o maníaco volta à ativa, a cidade de Haddonfield se torna o cenário de uma onda de pânico e histeria coletiva.

Para isso, o diretor David Gordon Green (Especialista em Crise, O Que te Faz Mais Forte), que também contribui com o roteiro, lança mão de ardis cinematográficos no mínimo notáveis. Um sofisticado plano sequência, violência gráfica que dosa bem o hiperbólico e a crueza, bem-vindas reviravoltas, além de inversões de expectativa em torno das referências que são aproveitadas de outros filmes, são todos elementos usados com competência para construir uma atmosfera de horror implícito que lembra em muito a essência de um jovem Carpenter.

Ao final, compreendemos que não há trauma que não possa ser enfrentado. Mesmo que anos de dor, angústia e inércia se interponham no meio do caminho. Mesmo que tenhamos que encarar um monstro sem rosto, o bicho papão definitivo que se revela o pior dos nossos medos mais recônditos.

Fazer isso é um passo sem volta rumo à libertação.

Notas

Média