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Com atuações competentes, “Green Book: O Guia” busca adoçar um assunto amargo

Green Book: O Guia(Green Book)

Classificação: 12 anos

Estréia: 24 de janeiro de 2019

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 10min

Nota do crítico

Crítica

Como é espantoso que Peter Farrelly, diretor de comédias nada sutis como O Amor é Cego e Ligado em Você, seja o mesmo realizador de Green Book: O Guia.

Conhecido por um humor muitas vezes grotesco, estereotipado e beirando o ofensivo – que não obstante gerou grandes sucessos – ele sempre trabalhou em conjunto com seu irmão mais novo Bobby.

Peter até chegou a dizer que eles eram os “anti-Coens”, ou seja, ao contrário dos irmãos oscarizados de Onde os fracos não têm vez, ninguém analisava os filmes deles.

Com um longa acumulando cinco indicações ao Oscar, incluindo a de melhor filme, parece que alguma coisa mudou na casa Farrelly, e para melhor.

Baseado em fatos reais, Green Book diverte enquanto fala de temas sérios

Green Book não é exatamente uma comédia, mas é um filme repleto de bom humor, o que é outra surpresa diante do tema central que explora: o racismo.

Essa é uma das características do filme que deve agradar a maioria dos espectadores, o modo como ele aborda um assunto duro como uma pedra e faz com que caia com a leveza de uma pluma no colo de sua plateia.

Nesse sentido, o longa tem um apelo quase didático ao mostrar um personagem “durão” e preconceituoso como Tony Vallelonga (Viggo Mortensen) se transformando em uma pessoa mais empática e esclarecida.

O personagem é um leão de chácara ítalo-americano com um apetite enorme, paciência curta, e uma lábia tão boa que lhe deu o apelido de Tony Lip (“bocudo”, na tradução em português).

Em suma, trata-se de uma figura tão exagerada que o contraste entre ele e seu chefe, o músico Don Shirley (Mahershala Ali), ocorre em todos os sentidos, não somente na cor da pele.

Shirley é um intelectual, polido, bem educado, e sua postura elegante e maneirismos refletem sua inteligência e poder econômico, algo raro para afroamericanos nos anos 60.

Foi um músico que, como Nina Simone, não teve a oportunidade de tocar como pianista clássico simplesmente em razão da sua cor.

Vallelonga e Shirely são opostos que se atraem

O adágio de que opostos se atraem é muito bem ilustrado em Green Book, porque de cara o atrito entre esses diferentes homens gera uma energia de arrepiar os pelos da nuca.

Grande parte do filme se sustenta pela atuação de Mortensen e Ali, cuja química permite deixar passar algumas falas cafonas e torna palatável as cenas mais clichês.

Ali, principalmente, dá ao papel uma energia contida, onde ele não precisa fazer muita coisa para se expressar, basta uma mudança no olhar e na entonação de sua voz.

Ele interpreta Shirley como um homem cercado por muralhas que ele construiu como uma forma de protegê-lo da exclusão e do preconceito.

Além disso, o ator aparenta absolutamente verossímil ao piano, ele parecia mesmo estar tocando, embora tenha contado com um dublê para as músicas mais difíceis.

Ali desponta como favorito ao Oscar de melhor coadjuvante por este papel

Já Mortensen tem o mérito de fazer com que uma figura tão hiperbólica pareça de fato com um homem, e não uma caricatura de um brutamontes gente boa. E a título de curiosidade, o Tony Lip da vida real foi também ator, e vale a pena conferir sua página no IMDb.

A perspectiva dos eventos é majoritariamente vista pelo olhar de Tony, e a família do verdadeiro Vallelonga participou ativamente do roteiro e produção do filme (seu filho e outros parentes inclusive aparecem no longa).

Isso causou polêmica quando a família de Don Shirley se manifestou fortemente contra Green Book. A despeito das críticas negativas, ainda permanece o fato de que dentro do filme, um homem branco revê todas as suas opiniões racistas e muda.

O longa é claro em mostrar que oportunidades para negros e brancos não são as mesmas. Por um tempo, o próprio Tony menospreza os fatos e tenta fugir da realidade, mas por fim, ele compreende e rejeita esse status quo.

Essa é uma lição válida para muita gente, que como Tony, precisa aprender a falar menos, ouvir mais, e se colocar no lugar do outro. Green Book  adoça um assunto amargo, mas não retira sua importância.

Notas

Média