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Hambúrguer com gosto de espaguete

Três Homens em Conflito(Il buono, il bruto, il cativo)

Classificação: Classificação indicativa 14 anos

Estréia: 11 de janeiro de 1968

Genêro: Faroeste

Nacionalidade: ITA

Duração: 2h41m

Nota do crítico


Em meio à Guerra Civil Americana, três homens fazem de tudo para colocar as mãos em 200 mil dólares roubados do exército confederado.


Crítica

Uma das figuras mais presentes no imaginário popular em qualquer lugar do mundo é o cowboy americano. O gênero produziu filmes com atores tão díspares como Tom Mix, Gary Cooper, Roy Rogers, Alan Ladd, Randolph Scott, Gregory Peck, e a lendária associação dos dois Johns, Ford e Wayne. Outros atores e personagens mudariam para sempre o gênero, com filmes como “Três Homens em Conflito”, de 1966.

Curiosamente, a transfiguração para as telas dos cowboys até o início dos anos 1960 sempre mostrara uma imagem romântica, com personagens sempre asseados, barbeados e elegantes, que nunca faziam nada errado, o perfeito herói “clean”.

Foi preciso aparecer um italiano atrevido para materializar o faroeste numa escala de realidade muito maior, e que provocou uma verdadeira revolução na indústria do cinema entre os anos sessenta e setenta: o spaghetti western. Apesar do termo meio pejorativo (faroeste espaguete), o movimento iniciado pelo genial diretor italiano Sérgio Leone desencadeou uma avalanche de cerca de duzentas produções semelhantes, revitalizando o gênero.

A trilogia que inaugurou o ciclo foi com os filmes “Por um punhado de dólares” (uma refilmagem de “Yojimbo” de Kurosawa), “Por uns dólares a mais”, e “Três homens em conflito”, este último, o objeto desta resenha.

A pergunta óbvia é: que diferença estes filmes apresentaram, em relação a tantos outros feitos anteriormente? Basta imaginarmos qual seria a aparência real de um dos heróis do Velho Oeste Americano. Homem rude, habituado a passar longos períodos de solidão nas campinas, florestas ou desertos, acostumado a enfrentar dificuldades tão diversas quanto picadas de cobra, ataques de índios, fome, sede, bandidos, xerifes truculentos, fazendeiros ambiciosos, etc… Diversões? Bebidas, da pior qualidade possível, prostitutas cheias de doenças, e jogos de cartas ou dados. Ponto para Leone, disparado.

Mas, não é só na aparência que os personagens de Leone são mais verossímeis. As pessoas retratadas em seus filmes são repletas de defeitos e qualidades – como qualquer ser humano – e não aquela dicotomia tradicional de mocinho bonzinho e vilão malvado. Não existem arquétipos, os principais personagens são farinha do mesmo saco, embora tenham características diferentes.

O título em português segue o óbvio (“Três homens em conflito”), mas o original vai direto à caracterização dos personagens: “Il Buono, il Bruto, il Cativo”, o bom, o mau e o cativo. O Cativo é Tuco (Eli Wallach), um mexicano saído da miséria para o banditismo, com uma ficha criminal que ia de assassinato a abandono de lar. É ambicioso, vingativo, mentiroso, e, cruel, embora tenha sentimentos de família e amizade, como todo ser humano.

O Mau é Olhos-de-Anjo (Sentenza, no original italiano, vivido por Lee Van Cleef), um assassino a preço fixo, que se gabava de sempre cumprir os “trabalhos” que assume. Diferente de Tuco, que era passional, Olhos-de-Anjo matava por obrigação, torturava para obter o que precisava, e, cooptava, quando via que era necessário. Em nenhum momento perdia a calma, ou se desesperava.

O Bom é Blondie (Clint Eastwood), um pequeno vigarista de boa pontaria, que vivia em parceria com Tuco, arrancando dinheiro de xerifes de pequenas cidades.

O que estes homens tão diferentes tinham em comum é o segredo de um tesouro confederado, enterrado num cemitério sulista. Ao longo do filme, alternam-se na dominação dos outros, com o objetivo de extrair a localização exata do tesouro.

Se a história é simples, na transformação em filme é que se nota a genialidade de Leone, que usou técnicas e movimentos de câmera bastante ousados, aliado a uma trilha sonora de excepcional qualidade, de ninguém menos que Enio Morricone, um dos maiores nomes da música no cinema.

Algumas sequencias do filme são antológicas, como o triplo duelo no cemitério. A passagem de imagem de rostos e mãos dos duelistas, aliado à atordoante música de fundo, é impressionante. Outra cena estranha e fascinante é quando Tuco percorre o cemitério, procurando a sepultura correta. O ritmo alucinante da câmera consegue traduzir toda a emoção e ansiedade do personagem.

Uma ideia que me passou pela cabeça (e que é tão válida quanto qualquer outra) é que os três personagens, na verdade, são lados de um mesmo triângulo, faces diferentes de uma mesma condição humana. Todos nós temos o nosso lado Tuco, que se preocupa com as necessidades elementares (comer, dormir, aquecer-se, divertir-se, etc.). Ao mesmo tempo, a sociedade em que vivemos hoje estimula o lado Olhos-de-Anjo, à medida que coloca a competitividade acima de tudo. É o nosso lado Gérson, que tem que tirar vantagem de tudo, cumprindo a velha máxima de que os fins justificam os meios. Por fim, existe o nosso lado idealista e ético, que contrabalança os outros dois, que é representado pela face Blondie. Talvez a “viagem” tenha sido grande nessa leitura, mas Leone mostra a sua visão otimista, ao derrotar o lado mais negro do triângulo.

O filme tem o suporte dos atores, todos excelentes, ainda em início de carreira. Clint Eastwood, o que alcançou maior sucesso, vinha de alguns pequenos seriados na TV americana, e, aceitou participar de “Por um Punhado de Dólares” por quinze mil dólares. Esse filme foi a grande guinada em sua carreira, projetando-o como um dos grandes nomes do cinema americano.

Lee Van Cleef repetiu a sua performance em inúmeros outros filmes do spaghetti western, mas não teve o mesmo sucesso de Eastwood. Eli Wallach, o Tuco, desenvolveu uma notável carreira na televisão americana. Uma curiosidade sobre este último foi a recusa de um papel em “A um passo da eternidade”, pelo qual Frank Sinatra ganharia um Oscar.

Uma atenção especial deve ser dada à trilha sonora deste filme, assinada por Ennio Morricone. A música tema é praticamente a marca registrada do faroeste no cinema, mesmo que a maioria das pessoas não tenha nem ideia de qual filme se trata. Morricone é o mais produtivo compositor do cinema, ao lado de Maurice Jarre. São dele as trilhas de “O Anticristo”, “1900”, “La Luna”, “Os Intocáveis”, “Áta-me” e o maravilhoso “Cinema Paradiso”, entre quase quatrocentos títulos que constam do site do IMDB.

A edição latina em Blu-Ray trouxe o filme na íntegra, e, nos extras, Bio-filmografia, Pôsteres, Fotos Sttil, Trailers, Trívia game com nota, Cenas excluídas, O Homem que perdeu a guerra civil, e Reconstruindo O Bom, O Mal e O Feio. As sete cenas deletadas elevam o tempo total do filme para 176 minutos. O formato de tela para este filme não poderia ser outro senão o widescreen. As panorâmicas constantes, os closes exagerados, e o fantástico enquadramento de Leone, simplesmente desaparecem quando se faz o corte lateral para preencher a tela da tv. Este foi um dos poucos filmes que foi lançado em VHS com o formato de cinema, gerando muitas reclamações, semelhantes às dos primeiros usuários de DVD, que eram acostumados ao formato de videocassete. O som é fornecido em inglês, espanhol, português e francês 5.1, e italiano 2.0, o que favorece a excelente trilha sonora.

“Três Homens em Conflito” é um filme que interessa aos aficionados por faroeste, aos fãs de Eastwood, estudiosos de cinema, apreciadores de boa música, ou, simplesmente, quem quer curtir um bom filme de ação. Outras leituras podem ser feitas, a depender de como se olhe para o filme. Experimente, e faça a sua.

Notas

Média