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Ódio, capuzes e as feridas abertas da América

Infiltrado na Klan(BlacKkKlansman)

Classificação: 14 anos

Estréia: 22 de Novembro de 2018

Genêro: Biografia, Comédia, Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 15min

Nota do crítico

Crítica

Poucos diretores americanos podem se dizer tão engajados quanto Spike Lee. Sua vasta obra cinematográfica se debruça sobre questões étnicas e raciais desde o final dos anos 80, quando despontou com sucessos de crítica como Faça a Coisa Certa (1989), seguido de Febre da Selva (1991) e Malcolm X (1992).

Sai ano e entra ano, e a veia cáustica que sedimentou sua carreira parece tão ativa quanto há 30 anos. O seu Infiltrado na Klan (2018) possui um texto tão afiado e uma crítica de uma atualidade tão chocante, que será difícil não encontrar paralelos com a realidade em que vivemos, embora seja baseado em um livro (Black Klansman, de Ron Stallworth) que narra eventos autobiográficos ocorridos nos anos 70.

Na trama, John David Washington (para quem não o conhece, filho do ator Denzel Washington) interpreta Ron, um novato nas forças policiais do Colorado empurrado a enfrentar toda a intolerância do sistema, já que é o primeiro afro americano a ocupar tal cargo naquela localidade. A chance para se autoafirmar aparece quando se candidata a infiltrar-se na centenária Ku Klux Klan, a organização supremacista que prega ódio aos negros nos Estados Unidos.

Testemunha ocular da intolerância: batalha ideológica sem fim.

E eis toda a ironia do roteiro: como um negro poderia estar infiltrado em um grupo racista, sem ser depositário de toda a violência dos indivíduos que o compõem? E ainda assim, conseguir indícios suficientes para criminalizá-los?

Com a ajuda de Flip Zimmerman, personagem de Adam Driver, há toda uma tentativa de dissecar como a Klan funciona, o discurso asqueroso, o desejo de extirpação de uma raça (na realidade minorias, a julgar pela extensão desses posicionamentos a homossexuais e judeus), as operações discretas em semiclandestinidade, como se no dia a dia as pessoas usassem máscaras para esconder quem realmente são. O equivalente aproximado, aqui no Brasil, do chamado “cidadão de bem”.

Soa como uma tapa na cara ou um soco no estômago a maneira como Spike Lee escancara tais questões, linkando com a atualidade sem se deixar levar por concessões, sobretudo com as últimas cenas que são apresentadas, no desfecho. Gravações reais de manifestações, com a Klan ainda muito presente em solo americano, e o embate inevitável entre opressores e oprimidos, uma tecla que repetida e conscientemente o filme tende a bater.

Então, se há algo que Infiltrado na Klan merece é ser visto. Pelas atuações poderosas (além de Driver, Alec Baldwin e Topher Grace estão muito bem). Pelo humor contido, irônico e ácido do texto. Pela ambientação fiel, com cenografia e temas condizentes com a cultura negra. Pela relevância do tema. Que seja.

Acima de tudo, para não ser esquecido em momento algum que vivemos em um mundo implacavelmente racista. Não só o racismo das ofensas diretas verbais, físicas e psicológicas, mas também o pior tipo possível: aquele que vive escondido, implícito, esperando a ocasião mais adequada (vide redes sociais) para se expressar.

Notas

Média