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Jogo de xadrez às cegas

Mr. Mercedes (1ª Temporada, 2017)(Mr. Mercedes)

Classificação: 14 anos

Estréia: 09 de Agosto de 2017 (EUA)

Genêro: Suspense, Thriller

Nacionalidade: EUA

Duração: 60min

Nota do crítico

Crítica

É unanimidade dentre leitores, seriéfilos e cinéfilos que Stephen King é e sempre será um escritor associado ao terror explícito, a inundar nosso imaginário com as mais lúgubres e improváveis imagens de medo e de desespero. Afinal, o que esperar do criador de It, Carrie e Pet Sematary?

Daí que não se pode culpar o público pelas expectativas geradas, a serem frustradas ou não dependendo do produto resultante, dentro dessa onda recente de adaptações das obras de King. Principalmente quando surge uma série com o perfil de Mr. Mercedes (2017), cuja primeira temporada adapta o livro homônimo, publicado no Brasil pela Editora Suma.

Eis um produto totalmente atípico, e um dos motivos para isso é seguir mais a linha suspense investigativo, evitando ao máximo cacoetes ou saídas fáceis que possam convergir para elementos sobrenaturais (inexistente nestes dez primeiros episódios), gore (ainda que aqui e acolá, se arrisque um prenúncio de horrores sanguinolentos, que nunca chega de fato a se concretizar) e jump scares descarados.

Aqui, tudo é um jogo de gato e rato bem orquestrado. Bill Hodges (Brendan Gleeson, ótimo como anacrônico turrão), detetive aposentado, entra em um jogo psicológico com um maníaco homicida (Harry Treadaway), responsável por atropelar com um Mercedes uma multidão em uma feira de empregos. Como resultado, um confronto à distância (a tecnologia, com os computadores, redes sociais e gravações de vídeos, assume um papel importante na trama), feito de pistas falsas e tensões subjacentes, que conduzem bem a narrativa, mesmo sem uma preocupação proeminente com clímaces ou explosões de adrenalina.

Um dos acertos do roteiro é conseguir o equilíbrio perfeito entre ser fiel ao texto-base, e desenvolver adequadamente algumas das nuances psicológicas dos personagens. Hodges, sua filha desajustada, o psicótico Brady, além da sidekick Holly, são todos deslocados sociais, peças soltas dentro do grande esquema da vida cotidiana. E por não se encaixarem nos padrões vigentes, patologizam: no caso de Brady, tornando-se um psicopata sem sentimentos ou complexos de culpas (Treadaway faz um trabalho notável, reunindo frieza e sadismo sob um verniz de civilidade e credibilidade). Já Holly, interpretada pela esforçada Justine Lupe, assumindo sua persona compulsiva, introspectiva e arredia, conseguindo ganhar facilmente o público com seus traumas e receios, isto é, por ser muito humana.

Brady Hartsfield, o assassino do Mercedes.

Apesar do trabalho de excelência do elenco, e da qualidade técnica da série como um todo, nem tudo funciona a contento. O rápido interesse amoroso em torno de Hodges e de sua excêntrica vizinha não engrena e é facilmente esquecido. Muito da rotina da loja de informática onde Brady trabalha, é explorada à exaustão, talvez um pouco mais do que o bom senso e a objetividade requeriam. Além da relação perturbadora do pretenso antagonista com sua mãe, bem desenvolvida, ainda que houvesse espaço para algumas pinceladas adicionais.

Ao final da temporada, a impressão de saldo positivo é patente. Não como uma experiência inesquecível, mas como um passatempo acima da média. Atualmente, uma nova temporada tem sido transmitida semanalmente pelo canal americano AT&T, e adapta o livro final da trilogia, Último Turno. Se for novamente fiel ao material de origem, a história deverá ter uma abordagem totalmente inesperada. É aguardar para ver.

Notas

Média