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O homem que sonhava acordado

Lawrence da Arábia(Lawrence of Arabia)

Classificação: Classificação indicativa 12 anos

Estréia: 04/12/1963

Genêro: Biografia, drama histórico

Nacionalidade: UK

Duração: 3h36m

Nota do crítico

Crítica

“Todos os homens sonham, mas não da mesma maneira. Aqueles que sonham à noite nos empoeirados recessos de suas mentes, ao acordar de dia, descobrem que tudo foi em vão. Mas, os sonhadores diurnos são homens perigosos porque eles sonham com os olhos abertos para torná-los possíveis. Isto eu fiz.” 

Os Sete Pilares da Sabedoria (Capítulo Introdutório, suprimido)

 

Um dos mitos mais populares do Século XX foi Thomas Edward Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia. Lawrence, que era inglês, teve um papel importantíssimo na campanha do Oriente Médio, durante a Primeira Guerra Mundial. Personalidade forte e controvertida, nada tinha a ver com o padrão do soldado britânico tradicional. Além de destoar dos hábitos militares de seu país, foi um grande defensor de uma Arábia independente. Se considerarmos que a Inglaterra era o maior império colonialista da época, pode-se ter uma idéia do sacrilégio do pensamento de Lawrence.

A história de Lawrence, em especial o período aventureiro em que pelejou no deserto, foi brilhantemente levada às telas em 1962 por David Lean, após uma produção igualmente difícil e custosa.

Para entender melhor o mito, vamos nos transportar para o ambiente onde Lawrence atuou. No início do século XX, se a Europa já experimentava o modernismo da Revolução Industrial, o resto do mundo era um universo de colônias subdesenvolvidas atreladas às grandes potências da época: Inglaterra, França, Alemanha e Rússia, esta última já vivendo os estertores da dinastia Romanov. O Oriente Médio era uma terra-de-ninguém, ocupada por tribos nômades, que passavam a maior parte do tempo guerreando entre si.

As comunicações eram péssimas, e o grande meio de transmissão de notícias ainda era a imprensa escrita, com todas as suas mazelas. Nesse ambiente, a guerra era um assunto distante para a maioria das pessoas, e mesmo na Europa, era impossível ter ideia do horror da realidade das trincheiras, que matou e mutilou milhões de homens.

O que as pessoas imaginavam da Arábia, por exemplo, eram as Mil e Uma Noites e os romances de aventuras, geralmente escritos por pessoas que jamais a visitaram.

Neste terreno fértil, a intensa cobertura que o jornalista e escritor americano Lowell Thomas fez, em 1919, sobre a participação de Lawrence na guerra, elevou o inglês à condição de mito. Profundamente envolvido com a causa de uma Arábia independente, Lawrence usou seu próprio sucesso para granjear simpatia ao movimento.

Esse apogeu da fama coincidiu com a Conferência de Paz em Paris, onde as nações vencedoras decidiam o destino do resto do mundo. Apesar de estar ligado à delegação da Inglaterra, Lawrence vivia junto ao então Príncipe Faissal, batalhando por adeptos à liberdade árabe.

Contrariando promessas feitas durante a guerra, Inglaterra e França mantiveram suas ideologias imperialistas, incorporando a Síria, Palestina e Mesopotâmia (atual Iraque) às suas colônias. Decepcionado, Lawrence dedicou-se a seu primeiro grande livro “Os sete pilares da sabedoria”, onde narrava suas aventuras.

Daí até sua morte em 1935, num acidente de moto, Lawrence dedicou-se a atividades dentro e fora do governo, convivendo com a ditadura da fama. Uma de suas últimas e valorosas contribuições foi o desenvolvimento de lanchas rápidas para salvamento de náufragos.

O filme de Lean, apesar de começar com a morte de Lawrence, restringe-se ao período em que a ação do inglês foi mais atuante na Arábia, durante a Primeira Guerra. A atuação de Lawrence na Conferência de Paris foi retratada num filme mais recente, “Um homem perigoso” (“A Dangerous Man”, EUA, 1990), com Ralph Fiennes no papel principal.

Apesar de ter sido feito na conservadora década de sessenta, Lean conseguiu transmitir bastante fidelidade aos fatos narrados. Para isso, deslocou toda uma imensa equipe para o deserto da Jordânia, onde levou dois anos e três meses para concluir as filmagens. Foram utilizadas técnicas inovadoras, numa época em que efeitos especiais eram feitos “no braço”, e, nem se sonhava ainda com o uso de computadores.

Cidades inteiras foram construídas para locações, enquanto que exércitos de homens e camelos eram selecionados e treinados para as cenas coletivas. O próprio exército da Jordânia foi colocado à disposição da produção pelo rei do país, que era um aficionado pelo cinema.

O elenco foi escolhido criteriosamente. Para o papel de Lawrence, foi procurado um ator de teatro que nunca tivesse feito cinema, recaindo a escolha em Peter O’Toole, elevando-o à condição de superstar. Alec Guinness, que já havia atuado com Lean no megasucesso “A Ponte do Rio Kwai”, foi selecionado para o imponente Faissal. O já veterano Anthony Quinn foi o nome americano para participar da produção.

Ao procurar alguém da região para o papel de Xerife Ali, resolveram testar um desconhecido ator, conhecido apenas em seu país, o Egito: Omar Sharif. O personagem Ali, aparentemente secundário, era uma espécie de Grilo Falante de Lawrence, e possibilitou a Sharif uma indicação para o Oscar, junto com O’Toole.

A edição em DVD para a América Latina veio com a mesma riqueza de detalhes que a edição americana. O filme tem quase meia hora a mais que a versão que chegou nos cinemas, incluso aí a Overture e o Intermezzo, trechos de quatro a cinco minutos só com música, característica comum nos longas-metragens daquela época.

São dois discos, estando a primeira parte do filme num disco, e a continuação e extras, no outro. O filme vem no formato Widescreen, como seria de se esperar para uma obra destas, e o áudio, em inglês (DD 5.1 e 2.0), português, francês e espanhol ( 2.0). As legendas estão disponíveis em português, espanhol, inglês, chinês, francês, coreano e tailandês.

Os extras existem para os brasileiros, ou seja, a maioria é legendada em português, incluindo o “Vento, areia e estrela: O Making Of de um clássico”, com mais de sessenta minutos e “Making Of : ‘Romance da Arábia’, uma conversa com Steven Spielberg”, com nove minutos. Além disso, tem quatro cinedocumentários curtos, da época das filmagens, além de trailers de cinema e fotos de época.

Embora a edição em Blu-ray lançada posteriormente traga uma imagem ainda melhor, e som DTS-HD MA, a edição em DVD ofereceu a oportunidade de acesso a uma das maiores obras do cinema épico, com imagem e som impecáveis, além de uma edição mais completa do que a que foi passada nos cinemas e televisão.

Além disso, os documentários, com testemunho de atores como Sharif e Quinn dão um brilho especial a esta edição. Se não é o testemunho histórico perfeito, é o retrato do mito que mexeu com a imaginação do mundo nos anos 1920.

Para completar a programação, procure também “Um Homem Perigoso”, e faça uma sessão inesquecível. Não esqueça, porém, de reservar tempo, pois só “Lawrence da Arábia” vai prender a sua atenção por mais de cinco horas ininterruptas! Boa diversão.

Notas

Média