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Continuação de Mamma Mia! traz muito mais ABBA!

Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo(Mamma Mia! Here We Go Again)

Classificação: 10 anos

Estréia: 20 de julho de 2018

Genêro: Comédia musical

Nacionalidade: Reino Unido, EUA

Duração: 1h54min

Nota do crítico

Crítica

Dez anos depois, quando ninguém imaginava que Mamma Mia! – sucesso que levou ao cinema uma história baseada nas canções da banda sueca ABBA – teria uma continuação, eis que os fãs têm a oportunidade de assistir novamente na grande tela às peripécias musicais de Donna Sheridan e companhia no cenário paradisíaco da ilha grega Kalokairi.

Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo chega com a proposta dupla de dar continuidade à trama do primeiro filme e, também, de contar mais detalhadamente como Donna (Meryl Streep) conheceu e se envolveu no passado com os três homens que viriam a se tornar os possíveis pais de sua filha Sophie (Amanda Seyfried). Para isso, entra em cena um elenco jovem liderado por Lily James, como a jovem Donna.

Paralelamente, vemos Sophie às voltas com os preparativos para a reabertura do hotel de sua mãe, o Bella Donna, enquanto sofre com a ausência dela e de Sky (Dominic Cooper), e aguarda a chegada das amigas da mãe, Rosie (Julie Walters) e Tanya (Christine Baranski), e dos três pais: Sam (Pierce Brosnan), Bill (Stellan Skarsgärd) e Harry (Colin Firth).

Lily James vive Donna quando jovem e se envolve com Sam, Bill e Harry enquanto recebe o suporte das amigas, Rosie e Tanya.

Fato raro em uma sequencia produzida tantos anos depois é a presença de todo o elenco que atuou no filme original, o que dá credibilidade ao longa e ajuda a atrair a plateia que deseja reviver a mesma aura do primeiro Mamma Mia!. Por outro lado, a inclusão de novos atores para viverem os papeis dos protagonistas do primeiro filme é uma maneira de conquistar o público jovem que não assistiu à produção dez anos atrás e não está familiarizado com as canções do ABBA. No entanto, embora a trama da Donna jovem dê um ar de renovação à obra e James tenha se saído bem na difícil tarefa de encarnar a personagem de Streep na juventude, a ausência da grande dama do cinema em boa parte do filme é sentida.

Meryl é a grande estrela e alma do filme, então, talvez tivesse sido uma escolha mais acertada optar por uma história que fosse focada inteiramente em contar o que aconteceu com ela após a trama do primeiro longa-metragem. Revelar a vida da protagonista com Bill na Grécia, sua relação com as amigas do trio Donna & The Dynamos e com os outros pais de sua filha, bem como apresentar o desenrolar do romance entre Sophie e Sky. Porém, a opção encontrada foi recontar um enredo já bem conhecido dos espectadores, o que se torna, por vezes, cansativo para quem assistiu à trama original.

Sophie sente falta de Donna enquanto relembra a história de como a mãe conheceu seus três possível pais.

Como era de se esperar, há grandes números musicais que permeiam a trajetória dos personagens e ajudam a demonstrar seus sentimentos. Composições do ABBA não tão conhecidas do público foram inseridas, assim como grandes sucessos já presentes no filme anterior. No entanto, ao contrário do primeiro longa, que é bem solar, brilhante e alto astral, essa sequencia é carregada de uma melancolia que permeia todo o filme, apesar de haver cenas mais alegres que conseguem divertir o público. As marcas do tempo nos atores também tiram um pouco do ar jovial que a obra possuiu em sua primeira versão. Aqui, vemos personagens mais maduros e com o semblante mais cansado, marcados pelas dores da vida e sem o mesmo frescor de outrora.

A novidade do segundo filme é a inserção de dois novos personagens: Fernando Cienfuegos, o gerente do hotel (Andy Garcia), e Ruby, a mãe de Donna, que é interpretada, surpreendentemente, por Cher – apenas três anos mais velha que Streep na vida real. Licença poética? Ou seria a jovialidade pós procedimentos estéticos da atriz uma saída para justificar uma mãe parecer ter a mesma idade ou ser mais jovem do que a filha? Seja como for, a personagem de Cher parece um pouco deslocada na trama e tem uma participação muito pouco desenvolvida, introduzida de maneira abrupta, embora sua entrada gere impacto.

Sophie, Sam, Rosie e Tanya vivem suas emoções ao som do ABBA.

Mamma Mia! 2 padece do mesmo mal de algumas continuações, principalmente as produzidas após um grande espaço de tempo: perdeu o timing. O filme tinha tudo para ser muito mais, no entanto, parece solto, meio perdido. A mudança de direção, passando das mãos de Phyllida Lloyd para Ol Parker, também afetou o filme. Algumas cenas parecem deslocadas e com resoluções muito fáceis e há, ainda, algumas incongruências no roteiro, também assinado por Parker.

É compreensível que numa obra baseada em canções pré-existentes há que se moldar a história para que as cenas se adaptem ao que é contado nas letras musicais. Mas poderia ter havido um cuidado maior em fazer um roteiro que respeitasse os fatos apresentados anteriormente. Fica a sensação de que os roteiristas subestimaram impiedosamente a inteligência e a memória da audiência. O espectador acaba tendo duas opções: se sentir ludibriado pelas mudanças na trama ou fazer o grande esforço de fingir que não viu e deixar passar, o que é, no mínimo, injusto.

Entre os pontos altos do filme está a interpretação de Lilly James, que também faz bonito ao emprestar sua bela voz à personagem e apresentar uma jovem Donna forte que encara todos os desafios. A dupla de amigas – interpretadas por Alexa Davies e Jessica Keenan Wynn – também se saiu bem, conseguindo captar a essência das intérpretes mais maduras. Aliás, a participação de Walters e Baranski é um deleite, pois suas tiradas cômicas sempre dão a leveza de que o filme precisa. O trio de pais também está bem, apesar de parecer ter perdido um pouco o fôlego. Já os atores que os interpretam quando jovens – vividos por Jeremy Irvine, Josh Dylan e Hugh Skinner – parecem não conseguir a mesma desenvoltura do grupo feminino, com atuações que deixam a desejar.

Outro acerto foi fazer um paralelo entre os momentos vividos por mãe e filha no passado e no presente, muito bem marcados pelas transições de que Parker fez uso – lembrando muito o recurso utilizado em O Poderoso Chefão 2 – que dão emotividade na medida certa ao entrecho fílmico. Vale mencionar, também, os últimos números musicais – momentos mais ternos de todo o filme, que prometem fazer os espectadores irem às lágrimas.

Donna é uma jovem rebelde e sonhadora.

Mamma Mia! Here We Go Again é um bom entretenimento que tem as músicas contagiantes do ABBA embalando a relação mãe/filha como seu grande trunfo. O filme tende a despertar sensações diversas. Há aqueles que amam o primeiro filme e que podem ficar um pouco desapontados com alguns detalhes do novo; e outros que embarcam na história e se identificam com a trama da Donna jovem, curtindo as músicas e as trajetórias dos personagens sem se importar com possíveis falhas ou diferenças entre os dois longas. Comparações são inevitáveis, mas, no final das contas, o mais importante é mergulhar na trama e, assim como a letra da canção Mamma Mia, dizer: “Como posso resistir a você?”. Não resista e se jogue. Sim, lá vamos nós de novo!

Notas

Média