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Marcas de uma cidade em chamas

Detroit em Rebelião(Detroit)

Classificação: 16 anos

Estréia: 12 de Outubro de 2017

Genêro: Drama, Thriller

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 23min

Nota do crítico

Crítica

Cicatrizes que nunca se apagam

Os Estados Unidos sempre contiveram uma tensão latente, por baixo do suposto manto de prosperidade e do lema “American Way of Life”. Fruto de intensas opressões raciais que remontam a séculos de escravidão, intolerância e abusos. E cujo reflexo, longe de ter se extinguido, se mantém em um plano implícito, talvez esperando a próxima grande explosão.

Nos anos 60, alguns desses focos de conflito estouraram em grandes centros urbanos do país, sobretudo nos bairros constituídos em grande parte pela população de pessoas negras, segregadas e ainda vistas como uma espécie de páreas da sociedade. Los Angeles, Nova Jersey e, finalmente, Detroit, incendiaram em uma quase guerra civil, vitimando e destruindo em ondas por onde a revolta popular passava.

Esta última cidade eclodiu em tumultos a partir de um incidente de violência policial ocorrido em um bar situado em uma rua de maioria negra. O episódio foi o suficiente para insuflar as pessoas, que se manifestaram em intensos protestos. Um grito de insurgência que, em resposta à resistência opressora das autoridades, facilmente se transformou em saques, confrontos e pessoas assassinadas. Guardas nacionais e militares foram mobilizados pelo Governo. Centenas de pessoas presas. A violência tomou conta das ruas.

Esse é o contexto que preenche o novo filme da diretora Kathryn Bigelow, a esteta por trás de Guerra ao Terror (2008) e A Hora Mais Escura (2012). Seus últimos trabalhos são olhares apurados sobre os meandros políticos dos conflitos armados e das guerras. Alia-se a tal posicionamento uma estética de encher os olhos e uma atmosfera sufocante digna dos melhores thrillers.

Calor e tensão

O primeiro ato de Detroit em Rebelião (2017) se debruça sobre o delineamento desse contexto histórico. Uma tentativa de situar o público sobre o clima de ebulição daquele período, não só da cidade, mas de toda a América.

E o faz de uma maneira a não deixar dúvidas sobre suas contundentes intenções: faz uso de uma introdução animada e narrada, explicando um pedaço da história americana, câmera na mão acompanhando de perto os personagens, pessoas suadas, seus rostos revelando extrema tensão, fotografia saturada em cores quentes, e uma montagem ágil, beirando o vertiginoso. Tudo se encaixando perfeitamente e fornecendo uma perfeita imagem do senso de urgência que tomava conta de tudo e de todos.

O terreno é milimetricamente pensado para narrar os eventos em torno do incidente no Motel Algiers, um recorte que pretendeu focar no micro, sem esquecer o plano macro, social. Assim, é mostrada a intervenção de uma força policial sobre o Motel Algiers (encabeçada pelo talentoso e assustador Will Poulter), quando um grupo de jovens negros foi humilhado e espancado em razão da suspeita de portarem armas, nunca encontradas. O resultado: três desses indivíduos foram cruelmente assassinados a tiros.

Will Poulter, promissor ator, encarnando o sadismo e a intolerância racial, reflexo da própria época em que estão (e da nossa!).

John Boyega interpreta um jovem policial cauteloso, envolvido pelo turbilhão, se ancorando ferrenhamente na necessidade de escapar incólume ao inferno daqueles eventos. Afinal, apesar de policial, ele também é negro, testemunha da barbárie, e também vítima passiva do que estava vivenciando. O papel desempenhando por ele reflete o estado de apatia que é típico após alguém sofrer ou ver determinado número de atos violentos. O ímpeto de reação simplesmente recua. Sobreviver é mais importante do que se opor.

Um terço do filme se passa em single set, isto é, centrado em torno dos personagens e de uma situação específica. Nojo, medo e indignação se misturam diante de fatos reais, que ocorreram de maneira tão nefasta. Reflexo do ideário não apenas de algumas pessoas, mas de uma sociedade feita de brancos intolerantes, ainda crentes e herdeiros do juízo disseminado a respeito da inferioridade dos indivíduos negros.

John Boyega oferece uma atuação de entrega completa, totalmente condizente com o clima opressivo do longa. Seus olhos nos fazem ver o alcance do ódio das pessoas.

A vergonha de uma nação

Com seu realismo documental, Bigelow faz um apanhado assertivo, de grande valor histórico. Se tudo soa como grande soco no estômago, é porque esse pedaço da história ainda é uma chaga aberta, assim como tantos outros relatos. É um filme que faz pensar a partir do resgate de memórias.

Jugo e brutalidade. O miolo do filme não decepciona e prende na mesma medida em que indigna.

No ato final do filme, impunidade e injustiça dão as mãos em prol da manutenção do estado de coisas. A polícia, representante última da lei, não poderia ser responsabilizada. Outras autoridades, idem. Não havia culpados, apenas vítimas.

Bigelow, porém, não nos deixaria esquecer.

Notas

Média