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Não nascemos maus, o sistema nos corrompe

Sem Perdão(Shot Caller)

Classificação: 16 anos

Estréia: 16 de Junho de 2017

Genêro: Drama, Thriller

Nacionalidade: EUA

Duração: 2h 01min

Nota do crítico

Crítica

Todo ano, Hollywood desemboca os chamados “filmes de prisão” nos cinemas ou diretamente para o home video. Normalmente, roteiros que focam em fugas mirabolantes ou, em alguns poucos e especiais casos, sobre a degradação do indivíduo dentro do ambiente violento e bestializante do cárcere. É o caso de Sem Perdão, exemplar que aportou no Brasil ano passado, sem grande alarde, e que revigora o gênero acrescentando um ingrediente bem vindo de crítica social.

Na história, Money (Nikolaj Coster-Waldau) acaba de ser libertado da prisão, e se vê envolto em uma rede sem volta de crimes e assassinatos, acima de tudo uma tentativa desesperada de proteger a própria família. Certo de que a natural tendência do leitor diante dessa sinopse é categorizá-la como lugar-comum batido, qual não será a surpresa quando, ao assistir, se deparar com um filme que não escolhe caminhos narrativos fáceis, se revelando um estudo de personagem bastante seco e honesto.

Quando tudo o que importa é viver e retornar inteiro para a família, os códigos sociais e morais de civilidade não importam mais.

Apesar da aura de thriller pairando quando o personagem precisa lidar com uma negociata envolvendo armas, com a tensão de não saber em quem confiar, e ainda, com o clima pesado diante da breve reaproximação com a ex-esposa, é na construção de Money que a produção cresce e se diferencia. Estruturada em flashbacks intercalando a ação principal, toda a transformação pela qual passa é mostrada sem concessões, sem floreios. De um acidente de trânsito que se converte em tragédia familiar, até a condenação, a prisão, e a necessidade de sobreviver, em meio aos códigos muito particulares das prisões (onde cada ação repercute em ondas incontroláveis de violência).

Em decorrência, temos um filme com elementos claros de Carandiru (2003) do diretor Héctor Babenco (na análise psicológica e social), e de Os Donos da Rua (1991), de John Singleton (filme de formação, cujo duro aprendizado das ruas é a tópica que dita o amadurecimento dos personagens). Sem final feliz, sem uma reviravolta redentora e edificante. Apenas a cruel realidade que nos cerca dia a dia, e a melancolia de saber que qualquer um pode, mesmo sem querer, de uma hora para a outra, ser corrompido pelo sistema.

Daí que o filme se revela, além de tudo, uma reflexão acurada sobre os sistemas carcerários e sua inoperância em reabilitar e ressocializar. E que o bordão brasileiro “bandido bom é bandido morto” é uma solução imediatista e desumana. Uma falácia sem embasamento, muito longe de explicar e/ou mudar e realidade de violência no país.

Não obstante, não é um filme perfeito. A narrativa não linear pode gerar certa confusão. E, além disso, Jon Bernthal como coadjuvante insiste em fazer o mesmo tipo “malandro-psicótico-pouco confiável” de sempre. Ainda assim, ficar o alerta, não é um filme para ser assistido apenas como diversão despretensiosa.

Notas

Média