Pular para o conteúdo

O amor não tem idade

Nossas Noites(Our Souls at Night)

Classificação: 12 anos

Estréia: 29 de Setembro de 2017 (Netflix)

Genêro: Drama, Romance

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 43min

Nota do crítico

Crítica

Filmes sobre envelhecimento há aos montes. A maioria falando sobre uma das características mais marcantes dessa fase: a solidão como prenúncio da consciência cada vez mais aguçada da finitude. Como resultado, são obras que costumam recender a melancolia, com personagens que sofrem em uma etapa da vida que deveria ser, mais do que tudo, de reconciliação.

Por sorte, nem todos os filmes sobre o tema têm essa aura pessimista. É o caso de umas dessas (poucas) pérolas escondidas da Netflix, Nossas Noites (2017), produção que marca o reencontro de dois ícones de uma geração, Robert Redford e Jane Fonda, 50 anos após atuarem na comédia romântica bobinha Descalços no Parque (2017).

Aqui, dessa vez, atuando em trabalho mais sério, impingem traços muito pessoais a personagens que redescobrem o amor na chamada terceira idade. Na história, Addie (Fonda, sempre vivíssima no gestual e nas expressões faciais) faz um inusitado convite ao vizinho misantropo Louis (Redford, com postura cansada que casa bem ao personagem – não à toa, o ator noticiou pouco tempo atrás sua aposentadoria): passarem a dormir juntos, na tentativa de afastar o pesado véu de solidão que os envolve a noite.

E aquilo que deveria ser apenas um paliativo para a insônia, se adensa em um simpático relacionamento amoroso, daqueles que fazem brotar um sorriso aos lábios em cada sinal de carinho expresso nas cenas. E mais do que isso, não se detendo ao feijão com arroz do romance açucarado, o roteiro se preocupa em traçar perfis de gente vivida, críveis, e ao mesmo tempo, longe de serem modelos ideais e perfeitos de marido ou esposa.

Ele, um homem que em certo momento da vida teve uma relação extraconjugal que mudou para sempre o tipo de relacionamento que mantinha com a falecida esposa durante o casamento. Ela, mãe de um rapaz intransigente que passa por problemas no próprio casamento (a prejudicar até mesmo os cuidados ao neto), se sentindo pressionada por deixá-los desamparados. É esse tipo de cuidado com o texto que torna possível entender, mesmo sem o delineamento de um grande conflito visível, que ambos são frutos de suas próprias escolhas, até mesmo quanto à solidão em que se encontravam.

Vida pulsante e companheirismo redescoberto em uma troca de olhares.

Fora isso, o filme também é perfeito em discutir os rótulos e representações sociais que cercam os idosos. Seja sobre o reinício da vida amorosa, vista pela sociedade como uma realidade que não combina com essa fase da vida (assim como a retomada da vida sexual), seja sobre a própria ideia de autonomia limitada, a fazer crer que, morando sozinhos, todos os idosos estão sujeitos a requerem cuidados de terceiros. Generalizações muito comuns, tão presentes na vida real, e que nem sempre se confirmam.

Ao final, não temos necessariamente um final feliz. E isso pouco importa. Talvez o que as pessoas pensam para um filme do tipo seja, a saber, um “felizes para sempre” clichê, em que o casal deve ficar junto a todo custo. Mais importante do que isso é o sentimento de apoio mútuo, que não precisa sempre de garantias presenciais para ocorrer, o que o filme defende até o seu desfecho.

Porque, às vezes, tudo o que se precisa para estar junto é uma voz ao telefone.

Notas

Média