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O beijo no asfalto: no limiar entre teatro e cinema

O beijo no asfalto()

Nacionalidade: Brasileira

Nota do crítico

Crítica

Não deve ser fácil escolher fazer um texto de Nelson Rodrigues hoje em dia. Não que as temáticas abordadas não pareçam absurdamente atuais, verdade seja dita, mas porque todos conhecemos muito bem as premissas de seu teatro moderno: os conflitos familiares, o rompimento com as normas comportamentais e sexuais da sociedade burguesa, os personagens que lutam com suas culpas até o ápice da energia trágica. Desde a década de 1960 o autor percorre o imaginário da cultura brasileira através do teatro, da televisão e também do cinema. Sendo assim, a questão não é exatamente não fazer Nelson, porque precisamos dele, mas certamente: como fazer diferente?

Murilo Benício parece ter encontrado a resposta. Estreando como diretor de cinema em O beijo no asfalto – texto que foi encenado no teatro pela primeira vez em 1961 e já adaptado para as telonas por Bruno Barreto nos anos 1980 – Benício conseguiu repaginar o clássico de Nelson Rodrigues ao construir um produto no limiar entre linguagens. Ao associar códigos e convenções do teatro e do cinema, além do modo de produção habitual do making of, ele realiza um filme que nos revela o processo de preparação dos atores, o aparato cinematográfico e teatral, a construção do entendimento dramatúrgico em um jogo de vozes que atualiza o discurso fílmico.

Todo em preto-e-branco, o que evidencia a atemporalidade do tema abordado na mesma medida em que instaura uma atmosfera de investigação policial típica do cinema noir, o filme acerta o tom com uma fotografia impressionante de Walter Carvalho; uma movimentação de câmera que sustenta a tensão e o incômodo dos muitos conflitos existentes; um renomado e competente elenco; além de uma iluminação cênica e uma direção de arte que permitem que os espaços fluam e contribuam para o jogo entre revelar e ocultar, entre o documentário e a ficção, entre a fantasia e a quebra da quarta parede que tanto aguça a curiosidade do público.

Assim, Murilo Benício constrói um filme em trânsito, híbrido, que atualiza Nelson Rodrigues de uma maneira comovente e perturbadora, nos obrigando a refletir sobre o preconceito, sobre a moral social, sobre o poder das grandes mídias e o impacto das notícias falsas. É um filme bonito e bem feito, além de necessário. Um filme que evidencia o constante amadurecimento do cinema brasileiro contemporâneo.

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