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O Bug da Discórdia

Videofilia (e outras síndromes virais)(Videofilia (y Otros Síndromes Virales))

Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos

Genêro: Drama / Fantasia

Nacionalidade: Peru

Duração: 1h 52min

Nota do crítico

Crítica

A Mostra de Cinema Peruano, integrante da programação do 28º Cine Ceará, trouxe como filme de abertura o vencedor do Tiger Award do Festival de Roterdã em 2015 e no ano seguinte foi a (ousada) escolha do país latino-americano para disputar uma das vagas para os selecionados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Videofilia (y Otros Síndromes Virales)”.

Seria de se estranhar que o filme de estreia do diretor Juan Daniel F. Molero entrasse na conservadora lista de indicados para o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Isso pelo fato das escolhas estéticas e narrativas do longa propositadamente fora do padrão de qualidade imagética necessária para enfrentar essa disputa. Todavia, isso não faz “Videofilia” uma obra essencialmente ruim.

O filme inicia com o jovem Junior (interpretado por Terom) diante do dia depois ao que está registrado no Calendário Maia. A prometida aniquilação da humanidade divulgada pelas redes sociais não se fez cumprir e Junior tenta descobrir o sentido desse novo momento. Suas relações são baseadas por amizades virtuais, além de outras poucas reais que tendem a ser interferidas por aparatos eletrônicos como câmeras indiscretas ou no hall de consumidores mídias pornográficas  ou da cultura pop. E justamente na rede de computadores, Júnior conhece Luz (Muki Sabogal) e logo ambos estão dispostos a um “relacionamento a três” o qual o elemento que os conecta não é o afeto, mas sim a tecnologia que alimenta os seus mais obscuros desejos.

Os efeitos de glitch (falhas em imagens digitais) refletem o estado psicológico de Luz (Mika Sabogal). Foto: Divulgação

Relegados à periferia em uma cidade do Peru, os protagonistas buscam outros meios fugir do tédio da vida real ao se reunir com outros amigos para consumir drogas. E nesse sentido aparece o ponto mais experimental do filme que acaba se alimentando de sua autodestruição imagética: metalinguístico em sua essência, o longa-metragem tem a sua epiderme narrativa constantemente rompida por uma infecção visual de subprodutos da cultura pop, pornografia e memes de internet. Os efeitos de glitch (falhas em imagens digitais), que inclusive ganham um teor psicodélico em certos momentos, “dissolvendo” a realidade diante dos olhos dos protagonistas que estão sob efeito das drogas. A “baixa qualidade” proposital que o filme abraça também está presentes em elementos mecânicos como movimentos bruscos de câmera e sujeira impressa na lente, tudo para assinalar o teor amador que permeia toda obra.

“Videofilia” é um filme autoconsciente em suas limitações, rebelde, fragmentado, deliberadamente “sujo”, entregue à “paixão sifílica”, como diz um dos personagens, mas discorda com toda a gratuidade exposta ao condizer com o conteúdo, ao representar que “não tem sinal” entre a realidade e a percepção da vida na juventude peruana.

Como ilustra em certa passagem um vídeo assistido pelos protagonistas em que um portador de Síndrome de Tourette que, por causa de seu transtorno neuropsiquiátrico, grita insultos enquanto canta “Losing my Religion”, existe, entre a busca de pertencer a algo maior e o desejo individual a ser satisfeito, um hiato (um bug) preenchido por uma inconsequente, passiva e primitiva violência.

Notas

Média