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O Calor que Provoca o Desassossego: notas sobre TROPYKAOS

Tropykaos(Tropykaos)

Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos

Estréia: 5 de abril de 2018

Genêro: Drama / Fantasia

Nacionalidade: Brasil

Duração: 1h 22min

Nota do crítico

Crítica

Em sua nona edição, o Festival Goiamum Audiovisual, que ocorre na cidade do Natal até domingo dia 10, proporciona aos amantes da sétima arte diferentes oficinas, palestras e debates, além das diversas curadorias de produções nacionais.

Na noite desta sexta, além da mostra competitiva que contou com cinco curtas-metragens brasileiros focados essencialmente na memória sobre a ditadura militar e na desigualdade social do país, foi exibido TROPYKAOS (2018), longa dirigido por Daniel Lisboa – o primeiro filme de ficção lançado pela produtora Cavalo do Cão Filmes.

Nele, acompanhamos a saga cômico-trágica de Guima (Gabriel Pardal), poeta que tem sua rotina interrompida pela busca de um ar condicionado, elemento indispensável para sua estabilidade física e emocional. Desnorteado por uma enfermidade, espécie de hipersensibilidade à radiação solar, o filme conduz o personagem pelos meandros de uma Salvador típica dos cartões postais, com suas praias e, claro, o Elevador Lacerda, mas acima de tudo pelo subúrbio local, com suas vielas e esgotos, próximo aos viciados e aos neuróticos, explorando o grotesco e o submundo de uma cidade de contrastes evidentes.

Ainda que a claustrofobia do quarto, refúgio e espaço de fuga do protagonista, sempre seja retomada, a narrativa o conduz constantemente para o espaço das ruas – seja pela impossibilidade de ficar no local depois do corte da energia elétrica, ou mesmo pela quebra ou posterior venda do antigo ar condicionado pelo amigo viciado –, apresentando ao espectador um certo ar verossímil frente ao nonsense da temática e das situações apresentadas no filme.

“Diante da incapacidade de encaixar-se no submundo: a crise. Com a impossibilidade de adequar-se à elite: a combustão”.

Diante da crise de criatividade que o impede de finalizar seu livro, é sintomático que um filme baiano tenha como protagonista um sujeito branco, loiro e de olhos claros, oriundo de uma família burguesa e, nessas condições, poeta em crise que sofre com a inadequação ao excesso de radiação (ultraviolenta) da cidade soteropolitana. O calor, neste caso, se apresenta como uma metáfora de opressão que conduz Guima a sucumbir. Diante da incapacidade de encaixar-se no submundo: a crise. Com a impossibilidade de adequar-se à elite: a combustão.

Dialogando com a tradição marginal do audiovisual baiano, Daniel Lisboa nos apresenta, assim, um jovem personagem esmagado por um sol avermelhado cinemanovista, que carrega na pele as marcas do desassossego. Com atuações competentes e uma direção de arte estilizada, TROPYKAOS reacende o absurdo e caos das impossibilidades diárias, das fragilidades, dos desajustes de uma juventude incapaz de manter a poesia, o lugar dos sonhos, dos amores e da abstração. Tudo que lhe resta são os pequenos rascunhos traçados à meia luz ou os grafites nas ruas, resquícios de algo que ainda existe, mas que sucumbe ao real, enquanto o Carnaval ainda impera na cidade mais festiva do país.

Notas

Média