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O castelo mágico das crianças

Projeto Flórida(The Florida Project)

Classificação: 14 anos

Estréia: 01 de Março de 2018

Genêro: Drama

Nacionalidade: EUA

Duração: 1h 51min

Nota do crítico

Crítica

Redoma de sonhos

O jovem cineasta Sean Baker vem aos poucos moldando seus interesses e intenções em torno dos marginalizados da América. Foi assim com o pouco comentado Tangerina (2015), um contundente registro do dia-dia de duas transexuais negras nas ruas de Los Angeles.

Com Projeto Flórida (2017) as luzes se voltam para a situação de pobreza vivida por um grupo de moradores de um antigo motel, o “Magic Castle”, administrado pelo linha dura Bobby (Willem Dafoe). O que poderia se tornar um relato seco feito apenas para chocar e/ou emocionar, se torna um simpático filme minimalista, tão natural quanto a vida real deve ser.

Daí que a escalação de um elenco quase que totalmente constituído por desconhecidos forma a tópica da proposta: mostrar a vida cotidiana tal como ela é. Não só o seu lado mais difícil, de sobreviver a todo o custo em meio às injustiças e invisibilidade social, mas nas pequenas alegrias fugazes e pontuais.

Sendo assim, o ponto de vista predominante é o da pequena Moonee, garota de seis anos que passa o dia em pequenas travessuras e explorações nos arredores do motel. Muitas delas tirando a paciência de Bobby, quando não, irritando os outros moradores. Acompanhada de outras crianças, é como se tudo fosse uma grande aventura, em que as menores coisas (como bater a cabeça levemente contra a parede ou falar de frente para um ventilador para ouvir a voz ficar engraçada) se tornassem as situações mais divertidas possíveis. E por que não (afinal, são os olhos de uma criança), grandiosas.

Oásis de aventuras no mundo infantil.

Além dos muros do castelo rosa

Como fica evidente no trailer e materiais de divulgação, é um filme cujo visual se destaca, com pequenos ápices de beleza de encher os olhos. Na maior parte das cenas, objetos e figurinos, no todo ou em partes, se apresentam com a cor rosa, ou em suas variações, seja de lilás ou de roxo. Além disso, a própria fotografia valoriza a cor, emulando uma espécie de terra encantada ou um mundo colorido.

E isso é essencial para passar as sensações de vislumbre de toda criança, diante da necessidade de se refugiar de alguma ameaça, no caso, o contexto hostil em que se vive. O pouco que Moonee consegue perceber do que ocorre fora do “castelo” é visto em relances, sempre de uma maneira que o entendimento infantil não consegue alcançar.

A cor rosa e suas variações (lilás, por exemplo) constituindo o ambiente com seu significado.

Até o fim de sua jornada, Moonee vivencia muitas experiências, e testemunha com seus amigos muitas coisas inusitadas. Sob o seu olhar atento, turistas brasileiros descontentes e ranzinzas se tornam “aquele grupo cuja moça está prestes a chorar” (uma alfinetada e tanto, diga-se de passagem). Um grupo de religiosos distribuindo comidas, uma grande oportunidade de saborear coisas gostosas. Os restos de uma lanchonete, dados regularmente pela amiga da sua mãe, funcionária de lá, um verdadeiro banquete.

Essa escolha de ponto de vista é interessante, e permite tecer reflexões de uma maneira mais ou menos distanciada, sem juízos extremistas de valor. E é bom que seja assim, pois do contrário, a mãe de Moonee, Halley, se tornaria a grande vilã da história, uma figura materna desnaturada, péssimo exemplo, cuja única influência é sentida nos maus comportamentos da filha. Quando na verdade, o texto aponta para uma criança que é mãe de outra, empurrada para a vida adulta sem o mínimo de preparação e apoio, deixada aos cuidados de si própria. E que tem de fazer o que é preciso para cuidar da filha, mesmo que através de gestos irresponsáveis.

Sendo assim, quando não mais é possível manter o castelo de sonho íntegro, tudo desaba. O desfecho emotivo e crítico, então, se torna um grande soco no estômago, e a perda da inocência se faz consequência automática.

Sem o pesado ato final, talvez o estilo semidocumental da maior parte da narrativa, por mais relevante que fosse a sua crítica social, não suscitasse tanta empatia. Com esse desfecho, finalmente entendemos que uma hora ou outra somos engolidos pelo mundo. 

Willem Dafoe na corrida do Oscar

Um dos grandes destaques (não o único) fica por conta de Dafoe, com um personagem carismático mesmo com sua constante rigidez. Afinal, ele é o responsável por manter tudo em ordem. Só que ao mesmo tempo, e no decorrer da história, ele cresce em humanidade.

E quão poderosa não se tornam suas reações e expressões, quando ele também se conscientiza mais e mais do cenário lúgubre a impregnar a vida de mãe e filha! Desta forma, é justificável a indicação de Dafoe à Melhor Ator Coadjuvante no Oscar deste ano. Muito embora também fossem merecidas indicações para Prince e Vinaite.

O rabugento personagem de Dafoe se revelando mais humano do que a princípio aparentava.

É um filme que pode desagradar a alguns pelo seu estilo naturalista, muitas vezes com uma lente que parece aleatória e destituída de objetivo. Outros poderão não entender e até esnobar o desfecho “aberto” e de sonhos. De uma maneira ou de outra, Baker conseguir dar voz, mais uma vez, aos excluídos, lembrando a todos que (sobre)viver não precisa ser apenas sofrimentos e autoindulgência. Pode ser bem mais: um conjunto de aventuras fabulosas e imaginativas.

Notas

Média