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O (des)amor que nos rodeia

Sem Amor(Loveless)

Classificação: 14 anos

Estréia: 18 de maio de 2017

Genêro: Drama

Nacionalidade: Rússia

Duração: 127 minutos

Nota do crítico

Crítica

Para que seja viável a construção de pontes de relacionamento entre os seres humanos, se faz necessário não apenas uma mão estendida, mas a disponibilidade de compreender as (in)diferenças inerentes à história de cada pessoa.

Talvez um pouco de alteridade ou de empatia corroboraria para assumirmos, por alguns instantes, o lugar daquele(a) que dorme ao nosso lado ou de um(a) desconhecido(a) que esbarramos, aleatoriamente, na fila do pão. Sim, se “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, parafraseando Caetano Veloso, em seu dom de iludir, o que nos impede de sabermos também? Respondo: o desamor.

É sobre esta temática, que Loveless, vencedor do Prêmio de Júri do Festival de Cannes, do cineasta Andrey Zvyagintsev, muito elogiado por Leviathan (2014), e representante da Rússia na 80ª edição do Academy Awards (Oscar 2018), se debruça e despeja toda a sua carga dramática, a respeito da ausência de sentimentos que convergem para o que usualmente chamamos de amor.

Na trama, o “casal” Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Aleksey Rozin) estão em processo de divórcio e ansiosos para desfrutar seus novos amores. Para tanto, a maior disputa entre eles reside na distância que ambos querem manter do filho Alyosha (Matvey Novikov), de 12 anos, rejeitado desde sempre. Em meio ao tumultuado conflito de interesses e após testemunhar demasiadas brigas, a criança, que não gosta de brincar, foge de casa sem deixar rastros, mobilizando os seus pais (involuntariamente) e a comunidade em sua busca, não obstante a dor de sua ausência seja diminuta.

Ao longo de mais de duas horas de projeção, o longa se reputa num verdadeiro olhar acerca do lado sombrio da humanidade, a exemplo dos pais do garoto e da polícia, que são vacinados contra a sensibilidade na condução do caso. Nada mais natural se levarmos em conta que o diretor fez escolhas acertadas para mostrar que todos são produtos caricatos do meio que vivem: o mundo atual, que troca um abraço por uma rede social ou que troca a família por luxúria, dentre outras substituições pós-modernas.

Não se assuste. É que hoje nós tendemos a desviar o foco do que existe de mais substancial no outro, impondo valores egoístas de maneira desmedida, ignorando a primazia da comunicação. Mais que isso, perdemos a noção da necessidade de transmitirmos e recebermos afetos, por intermédio de gestos e palavras, em caminhos tão híbridos ou em situações que nos deveriam causar extrema tristeza e reflexão, mas que, aqui, não causam. Afinal, filhos e casamentos nem sempre são bem-vindos.

A atmosfera melancólica contagia intensamente todos os pontos primordiais do filme, pintando, desta forma, um retrato (des)humano, que impressiona, mas é real, embora longínquo do que esperamos, trivialmente, da vida.

Loveless alcança seus méritos nos mostrando toda esta faceta mediante uma narrativa realista, objetiva e direta em seu ritmo próprio, que pode não agradar a todos, mas garanto que não deixará ninguém apático, graças à barbárie que vislumbramos na tela.

Uma produção oriunda de uma nação costumeiramente estereotipada por uma imagem fria e indolente, onde os menos esclarecidos poderiam afirmar que ninguém melhor que a Rússia para dissecar o desamor; mas não se engane, o tema é bem universal.

Notas

Média