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O Dia da Santa e os desafios do cinema potiguar

O Dia da Santa(The Holy Day)

Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos

Estréia: 21 de Abril de 2016

Genêro: Drama

Nacionalidade: Brasil

Duração: 25min 42s

Nota do crítico

Crítica

Se o audiovisual já é uma realidade na cultura artística potiguar, acredito estamos passando por um momento de ouro, uma nova etapa dos curtas-metragens produzidos na região: o amadurecimento técnico, artístico e narrativo.

O Dia da Santa (2016), de Cássio Hazin, cineasta e empresário da CASU filmes, dialoga com o estilo impactante que se tornou a marca do cinema independente nordestino com peculiar originalidade e desapegado de pudores para se contar uma história.

O enredo acontece em uma cidade do interior do Rio Grande do Norte, dominada por um Barão que, durante os preparativos de uma festa religiosa, recebe a jovem Socorro, que possui limitadas capacidades intelectuais, deixada pela família, que sofre por problemas financeiros.

 “Tô nervoso porque tô com fome”

Desde o início da projeção vemos de modo proeminente o ponto de vista do Barão que “rouba a cena” com a sarcástica e assertiva atuação de Alex Ivanovich, cujo biótipo lembra os sertanejos do Seridó potiguar. O falante Barão tem seu contraponto na silenciosa Socorro, interpretada corajosamente  pela atriz Kédma Silva, em seu primeiro trabalho em uma produção audiovisual.

Após exibição na 6a Trinca Audiovisual, atriz Kédma Silva relata a sua experiência no curta "O Dia da Santa" (Crédito: Arthur Cortês / LEGeo)
Após exibição na 6a Trinca Audiovisual, atriz Kédma Silva relata a sua experiência no curta “O Dia da Santa” (Crédito: Arthur Cortês / LEGeo)

Na 6ª edição da mostra de curtas-metragens Trinca Audiovisual, realizada em agosto deste ano, Kédma Silva explicou que o convite para atuar em O Dia da Santa surgiu por meio do preparador de elenco Kaiony Venâncio e sua personagem seria inicialmente a mãe de Socorro, Maria. Porém sua aparência jovem e a desistência da atriz que iria interpretar Socorro proporcionaram uma chance a qual Kédma soube muito bem utilizar.

“Foi bastante difícil para mim. Tem todo o peso da Socorro como personagem, o ambiente que ela vive é próximo de mim em relação ao sertão, do Nordeste, mas é distante a realidade dela enquanto indivíduo”, comenta a atriz durante a mostra.

Filmes como Baixio das Bestas (2006) e Amarelo Manga (2002), do cineasta pernambucano Cláudio Assis, serviram de inspiração para o entendimento da atriz diante da atmosfera de abuso presente em O Dia da Santa. Kédma protagoniza uma cena marcante que figurará no hall do cinema potiguar devido à crueza e selvageria de um estupro que se configura. A iluminação precisa de uma cena objetiva para um olhar subjetivo e desolado da personagem.

A perturbadora cena do estupro e sua precisão técnica (Crédito: Divulgação / CASU Filmes)
A perturbadora cena do estupro e sua precisão técnica (Crédito: Divulgação / CASU Filmes)

Todavia, é perceptível na direção escolhida para o filme um certo repúdio aos atos do Barão. Comparando as obras de Cláudio Assis, existe uma certa erotização dos personagens femininos do polêmico cineasta. A câmera de Cássio Hazin  em O Dia da Santa observa os atos com repúdio, apresentando de forma cruel os atos de violência sexual.

O diretor, que também assina o roteiro de O Dia da Santa, explica a motivação do Barão na fase final de sua vida: “Ele tem todo poder religioso, econômico e político, só não tem o poder da juventude”. A juventude, representada pelos garotos que o Barão alicia e por Socorro que, por mais que não possua voz e expressa sua retidão em um incrível trabalho corporal, possui uma alegria inocente que aos poucos se esvai. Devido a sua impotência fálica, o velho Barão não passa de um voyeur, distanciado da prática em si e incapaz de saciar sua fome sexual mas ainda capaz de machucar aqueles que ele reivindica como seus vassalos.

Outra Santa Gorete? Nunca mais!

Como desafiar o poder absoluto? O pai de Socorro (interpretado por Bruno Goya) precisou se embriagar para ganhar coragem e enfrentar o Barão, abafando sua consciência diante do poder avassalador que seu inimigo detém. Em um sentido inverso, Socorro sai do estopo inconsciente e ganha consciência e a coragem necessária para dizer que ela pertence apenas a si mesmo.

O pai de Socorro (interpretado por Bruno Goya) e sua coragem vacilante (Crédito: Divulgação / CASU Filmes)
O pai de Socorro (interpretado por Bruno Goya) e sua coragem vacilante (Crédito: Divulgação / CASU Filmes)

Hipocrisia, covardia. Assim vemos o teatro armado para homenagear a “Santa Maria Gorete”, padroeira da região (e não por acaso ela encabeça este curta: foi mártir aos 11 anos após uma tentativa de estupro na Itália de 1902). O poder sempre deseja uma voz única e calar as vozes da população.

Podemos traçar um paralelo com a produção audiovisual que resiste e existe no RN. O desafio proposto por Hazin com O Dia da Santa é o desafio de todo produtor de conteúdo que deseja se expressar: fazer uma arte autônoma que não fique subjugada aos interesses políticos e econômicos.

O diretor e roteirista Cássio Hazin comenta as dificuldades e acertos da produção (Créditos: Arthur Cortês / LEGeo)
O diretor e roteirista Cássio Hazin comenta as dificuldades e acertos da produção (Créditos: Arthur Cortês / LEGeo)

Em entrevista para o Portal SetCenas*, Cássio Hazin comenta como ele vem encarando o mercado audiovisual e sua tentativa de se consolidar neste meio:

Como realizador, a gente tem que fazer cinema para se comunicar e a nossa comunicação é através da arte. Então, a arte é essencial para a gente e especificamente em O Dia da Santa eu tive experiências em captar recursos. Por exemplo, eu não consegui captar recursos porque o filme tratava de um assunto que não era um assunto… nós estávamos inseridos dentro da lei de captação e fomos atrás de patrocinadores, mas as empresas não queriam se envolver em um projeto que falava de estupro, que falava de diversos tipos de violência, então tive certa dificuldade. Por isso a importância dos editais, principalmente para aqueles que estão começando e querem mostrar seu trabalho. Depois que você está no marcado, as coisas ficam mais fáceis para você. Mas para quem está começando, é essencial mesmo esses editais. Tem que ter, para você ter a sua janela, para você poder mostrar o seu trabalho. Este [curta] especificamente foi feito de forma independente.

Com um trabalho de som direto, trilha sonora e iluminação excepcionais, planos e contra-planos bem articulados, atuações que se entregam aos personagens e uma figuração que traz vida às cenas coletivas, O Dia da Santa consegue inquietar o público e nos faz vislumbrar um cinema carregado de atitude e inserido no contexto corajoso do Nordeste.

*Entrevista concebida pela jornalista Dênia Cruz/Portal SetCenas.

Notas

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